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Afrouxei a intensidade dos pés nos pedais da bicicleta e observei o céu que se tinha intensificado com uma cor de petróleo. Gotas como alfinetes caíam espaçadas no meu impermeável, escorrendo ao longo dos braços esticados. Era o prenúncio da tempestade que aí vinha. Suspirei e semi-cerrei os olhos apoiados em duas olheiras fundas. Ainda sentia o calor dos lençóis como se nunca tivesse chegado a sair da cama, mas o ar gelado da manhã teimava em despertar-me da noite mal dormida. As gotas tornaram-se pesadas e rebentavam-me na cabeça despida como balões cheios de água. O capacete tinha dado jeito. Puxei uma manga molhada para cima e revelei um relógio de pulso. Um gato preto mostrava-me as horas e os minutos com os seus braços. Os seus olhos amendoados pareciam fazer pouco de mim. Faltava uma hora.

Olhei ao longo do caminho de terra que cortava entre as árvores e procurei um abrigo. Este corta-mato dava-me alguma vantagem em termos de tempo, mas oferecia pouca proteção contra a chuva. Ia chegar ao tribunal como um pinto encharcado. Depois reparei num trilho estreito do meu lado esquerdo, que nunca me lembrava de ter visto ali antes. Parecia que acabava um pouco mais à frente numa clareira. Talvez houvesse uma casa. Levantei uma perna e saí da bicicleta ainda em andamento, empurrando-a apressadamente pelo trilho. Efetivamente, uma casa revelou-se além das árvores, aninhada no limiar do bosque. Os meus olhos embaciados prenderam-se no alpendre seco e escancarei-os perante a solução para o meu problema. Trovões irromperam do céu como uma manada de bois no meu encalço.

Enquanto corria para o meu refúgio, observei a casa de madeira. Parecia abandonada, com vidros partidos no piso térreo e ervas altas a crescer no telhado. Na porta da rua fechada esvoaçava um bilhete pregado. Deixei a bicicleta tombada contra os degraus e subi-os com um salto na direção do alpendre. Passei as mãos pela cara e aconcheguei-me contra a parede. Cheirava a madeira molhada.

A chuva caía agora em cascata embalada pelo vento, formando poças de lama na terra. Com uma mão senti o relógio tapado pela manga. Quanto tempo é que ia durar este dilúvio? Pensei no Jorge e senti uma pontada fria no peito. Não o podia deixar mal quando mais precisava de mim. Abanei a cabeça, incrédulo com a situação. Eu ainda o via como o rapaz que brincava comigo nas traseiras do prédio, a entrar no carro abandonado que servia de sede às nossas missões secretas. Empunhávamos armas a fingir, talhadas de ramos velhos, e apanhávamos criminosos fugidos da justiça no meio de gargalhadas.

Um relâmpago estalou no céu, seguido de um estrondo no interior da casa.Virei-me para o edifício que me protegia e fiquei alerta. Será que a chaminé tinha sido atingida por um raio? Sintonizando os ouvidos para além do som da chuva observei a nota pregada na porta. Estava quase a soltar-se com o vento. Com uma mão apanhei-a antes de se impulsionar na direção da chuva. Olhei para o papel húmido e sujo:

Não entrar. Casa em perigo de ruína.

Dei um passo atrás, incerto se devia permanecer ali. As tábuas do chão pareciam estáveis o suficiente. Olhei novamente para o papel com uma crescente sensação de ansiedade e enfiei-o no bolso. Considerei se teria sido melhor continuar pelo caminho enlameado até sair do bosque. Por esta altura já tinha chegado ao tribunal. O mais importante era o que tinha a dizer como testemunha de defesa, e não o estado das minhas roupas. Além do mais, teria tempo suficiente para secá-las um pouco na casa de banho.

Dirigia-me para a bicicleta quando um estalido, agora mais suave, se fez novamente ouvir do interior da casa. A minha respiração acelerou e senti o coração a martelar nas veias do pescoço. Esta tempestade, em comunhão com a noite repleta de sonhos cansativos, estavam a brincar com a minha imaginação. Decidi que ia só espreitar pela janela ao fim do alpendre. Era só isso. Olhava lá para dentro, não via nada e ia-me embora.

O vento mudou de direção lançando a chuva na diagonal para dentro do alpendre. Quando me aproximei da janela as gotas escorriam no vidro, limpando a poeira que se acumulava no parapeito. Quando o meu olhar passou para além do vidro, o sangue gelou-me nas veias. Na grande sala, a imponente lareira na parede da direita estava acesa. O brilho das chamas dançavam pelo espaço escurecido, a lenha crepitava libertando um ocasional estalido mais forte. Saí da frente da janela e encostei-me rapidamente à lateral da casa. Eu pensava que a casa estava vazia, mas claramente estava lá alguém. Não me apercebera de ninguém na sala. Provavelmente estaria num dos quartos do piso superior.

A água fria escorria-me da cara e martelava-me no impermeável como se me pressionasse a entrar na casa. Virei-me para a porta e considerei essa opção. A tempestade tinha invadido o alpendre e estava mais forte do que antes, pautada por violentas rajadas de vento. Fazendo a custo um punho fechado com a mão enregelada, bati três vezes na porta de madeira. Voltei a bater três vezes com mais força para subir acima do barulho da chuva e do vento nas copas das árvores. Não houve reação do interior da casa. Bati uma vez mais, com mais força, agora com a lateral do punho. A porta abriu-se sob a pressão e vi-a deslizar lentamente até ficar entreaberta. A porta tinha estado mal fechada o tempo todo.

Afastei-a um pouco mais e fui inundado pelo cheiro a mofo e fumo.
— Está aí alguém? — O ruído abafou a minha voz tremida. Tentava desesperadamente sintonizar os ouvidos para o interior da casa, mas o coração a bater-me nos ouvidos dificultava a tarefa. — Procuro refúgio da tempestade. Está aí alguém?

Reconheci, para a direita e antes da entrada para a sala, a balaustrada de uma escada. Dei os meus primeiros passos no interior deixando a porta a vacilar ao vento. As escadas estavam intransponíveis. Caixas de cartão de grandes dimensões amontoavam-se nos degraus não deixando ver o que ficava para lá das suas formas na penumbra. Se alguém estava nesta casa, só poderia estar noutras divisões do piso térreo que não a sala. Reparei num corredor à esquerda da porta de entrada. Ao passar por ela chegou-me o som de madeira a rachar. Lá fora, do outro lado da clareira fustigada pela chuva, um pesado ramo tombava de uma das árvores que a ladeavam. Com um gemido doloroso deixou o tronco central e precipitou-se sobre o trilho que levava à casa. Eu fiquei estupefacto. Estava a tornar-se cada vez mais difícil chegar a horas ao tribunal. O julgamento ainda ia durar umas semanas. Só me restava esperar conseguir ser ouvido noutro dia.

O corredor que levava à cozinha estava completamente às escuras. Tateei ao longo da superfície húmida das paredes laterais até chegar a um espaço com grandes janelas de vidro que davam para as traseiras do edifício. A luz mortiça que escorria pelas várias secções de vidro sujo permitia-me ver suficientemente bem o interior. Havia pratos por lavar empilhados na pia; garrafas vazias sobre a pequena mesa de plástico ao centro emolduravam uma corda enrolada como uma cobra adormecida. Alguém estava a usar esta casa, mas quem quer que fosse, não estava aqui no momento. Não haviam marcas de pneus lá fora, nem a possibilidade de se chegar aqui com um carro, por isso a pessoa mistério só voltaria quando terminasse a tempestade. Mais valia não desperdiçar o calor do fogo por isso dirigi-me para a sala.

Havia dois grandes cadeirões de pele mal-tratada dispostos em frente à lareira. Sentei-me cautelosamente naquele que não estava coberto de pó. Depois, respirei fundo e relaxei os músculos do pescoço, deixando a cabeça inclinar-se para trás contra o apoio. Senti-me inebriado pela onda de calor que me aquecia a cara e as mãos e evaporava a água da minha roupa. O pequeno fio de fumo que saía em espiral da lareira enevoava-me a vista e dei por mim a semi-cerrar os olhos aguados.

A imagem de um Jorge mais novo a sorrir dançou entre as chamas transformando-se no adulto de hoje, sentado no banco dos réus. Os seus olhos familiares olhavam-me, descaídos. Eu sentia o peso da sua dor. Ver-se envolvido num caso de múltiplos desaparecimentos e acusado da possível morte dessas pessoas tinha sido a gota de água na sua personalidade sensível. As provas circunstanciais de que tinha sido visto à porta de casa de duas das mulheres que nunca mais tinham sido vistas eram poderosas perante o meu testemunho do seu bom caráter. Mas essa era a verdade, além do que podiam dizer os vídeos captados por modernas câmaras de segurança. Eu conhecia-o, como mais ninguém. Ele tinha sido o ombro onde eu encostara a cabeça em tempos de dificuldade. Era agora o meu dever ajudá-lo.

Os olhos compreensíveis do Jorge rodopiaram nas labaredas e esfumaram-se. A minha respiração acalmou e quando estava prestes a desligar os sentidos o som de algo a partir no piso superior arrancou-me do doce lazer. Sentei-me como um espeto a olhar para o teto da sala. Decidi que estava na hora de sair dali. Rapidamente.

Ao passar apressado em frente à escada atafulhada, ouvi novamente um ruído forte vindo do piso de cima. Parei em frente à escada. Sentia-me a começar a ficar irritado. A noite mal dormida, a tempestade, os nervos de estar atrasado para uma responsabilidade importante estavam a pôr fim ao meu bom senso. Outra vez, uma pancada forte, como se alguém estivesse a bater com um pau no chão. E outra vez, agora mais fraco.
— Eu já perguntei se está aí alguém! — gritei eu com uma voz esganiçada. Duas pancadas de seguida. Contra toda a cautela que me tinha sido passada pela minha mãe disse:
— Vou aí acima. — Mais duas pancadas. Alguém me estava a responder.