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Com uma energia alimentada pela adrenalina, tentei afastar a primeira caixa da pilha sobre os degraus. Era pesadíssima. Arrastei-a com esforço até cair no chão de madeira. Sons de vidro a estilhaçar soaram abafados no seu interior. A segunda caixa era ainda mais pesada e só a consegui mover alguns centímetros. Sem pensar duas vezes, rasguei a tampa e espalhei à minha volta os livros empilhados no interior. Fui removendo caixa a caixa como as camadas de uma cebola, com os olhos marejados de lágrimas pelo esforço súbito que tinha feito. Passei por cima da última caixa e subi o resto da escada com as mãos nos degraus. Ao cimo das escadas olhei para a direita e a esquerda ao longo de um corredor. Portas fechadas decoravam as paredes de ambos os lados.
— Estou cá em cima. — disse eu na expectativa que novas pancadas me indicassem o caminho.
Silêncio.

Lá fora a chuva martelava impiedosamente contra o telhado e ramos rangiam dobrados pelo vento.
Comecei pela esquerda a abrir portas. Um quarto vazio. Um quarto com uma cama sem colchão. Segui ao longo do corredor e passei as escadas. Abri mais uma porta para um quarto com a janela partida. O ramo de uma árvore atravessava o vidro até tocar no chão e água escorria ao longo da madeira para dentro do quarto. Será que tinha sido este ramo que eu ouvira a bater no chão? Será que estava a imaginar coisas? Quando estava prestes a fechar a porta apercebi-me de uma forma aninhada num canto escuro. Era um baú. Entrei no quarto e observei-o de perto. Não estava coberto de pó como o resto da casa e a tampa levantou sem fazer ruído. No seu interior estava uma caixa mais pequena. E no interior desta, uma coleção de relógios e jóias de mulher perfeitamente alinhadas. O pendente de um colar tinha o nome “Raquel”, outro, o nome “Joana”. Fechei a tampa com um sobressalto. Não estava a gostar nada disto.

Quando me levantei para sair do quarto, o ramo que atravessava a janela foi puxado para trás com uma guinada de vento que fez tombar a árvore na direção oposta. Vidros rachados partiram-se e precipitaram-se para o chão, deixando a janela escancarada como uma ferida aberta. Olhei pela abertura, afastando gotas dos olhos, e vi uma escada exterior presa à parede que desembocava na janela do quarto. Um carro enferrujado com ervas altas a sair pelas janelas estava esquecido nas traseiras da casa. Ao seu lado, uma fogueira apagada espalhava cinza negra ao longo de fios de água que deslizavam em todas as direções. Do céu irrompeu um trovão seguido de um raio, iluminando a área como o flash de uma fotografia na cena do crime. Por entre a cinza molhada brilhou um osso branco. E depois, outro.

Saí da casa a correr tropeçando nos livros espalhados no corredor do piso térreo. Quando levantei do chão a bicicleta molhada, a chuva pesada transformou-se numa nuvem de gotas leves e reluzentes. A luz do dia, finalmente a cortar por entre as nuvens que se dissipavam, mostrava-me o trilho além do ramo tombado. Sem olhar para trás pedalei furiosamente entre os arbustos encharcados, o aroma da terra molhada a impor-se na minha respiração acelerada. Ainda não tinha formulado as frases no meu pensamento. Só agora me atrevia a deixar as palavras agruparem-se num alinhamento com nexo. Descobrira, por um acaso do destino, o local onde as mulheres desaparecidas tinham perdido a vida. Sentia um misto de emoções. Por um lado, o terror dos seus últimos momentos insistia em formar imagens na minha mente, por outro lado, a expressão de alívio do Jorge dava-me alento para continuar.

Quando cheguei ao tribunal, deixei a bicicleta tombar sobre os degraus de entrada e entrei para o hall de mármore frio, seguido pelos gritos irritados do segurança. A andar para a esquerda e para a direita como uma barata tonta, o assistente do advogado de defesa do Jorge correu na minha direção.
— Carlos, mas que raio! Pensávamos que já não vinha. Estou farto de lhe ligar para…
— Ouça-me com atenção. — disse eu a agarrar-lhe nos braços com as duas mãos. Tentei estabelecer uma ligação com o olhar, mas o assistente olhava interessado para o meu cabelo desalinhado. — Eu descobri o esconderijo do verdadeiro assassino.
O assistente endireitou-se no fato demasiado largo e formou uma ponte com as duas sobrancelhas.
— Do que é que está a falar?
— Não perca tempo. Chame aqui um polícia, tenho de lhe dar a morada. Tenho a prova de que precisávamos!
O assistente rendeu-se ao meu sorriso e copiou-o. Depois, ainda com uma expressão baralhada, deu meia volta e dirigiu-se para uma sala de grandes portas de madeira polida. A meio caminho parou e virou-se de novo para mim.
— Antes que me esqueça. O Jorge tinha-me pedido para lhe passar este bilhete quando chegasse.
Agradeci com um aceno rápido e peguei no papel dobrado, vendo o assistente desaparecer atrás das portas. Abri o papel:

Carlos, obrigado por tudo. És um verdadeiro amigo.
Jorge

Quando levantei os olhos procurei um lugar para me sentar. Arrastei-me até um banco corrido de mármore e deixei-me cair. Por momentos segurei a cabeça entre as duas mãos, como se houvesse o perigo de se desprender do resto do corpo. Depois, meti uma mão gelada no bolso do casaco.

Quando o assistente regressou, acompanhado de um polícia e outras duas pessoas com ares gananciosos, eu ainda estava sentado de olhar perdido nos sapatos de salto alto que passavam à minha frente.
— Carlos Alves? — perguntou o polícia a engrossar a voz. Eu acenei lentamente a cabeça. Ainda a sentia estranhamente pesada. — A equipa de defesa do sr. Jorge Silvano diz-me que quer participar um acontecimento. Faz parte das testemunhas de defesa, correto? — perguntou novamente ele a sentar-se ao meu lado. Eu olhei-o nos olhos muito abertos.
— Não. Faço parte das testemunhas de acusação.

Queixos caíram à minha volta. O assistente do advogado de defesa ajoelhou-se à minha frente e pegou nos dois papeis abertos sobre os meus joelhos. Um, o bilhete passado pelo Jorge ainda há pouco. O outro, a nota que tinha estado presa na porta da casa abandonada. Em ambas, corria, ligeiramente inclinada para a direita, a mesma caligrafia.