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O telhado de zinco, inclinado sobre a entrada da casa, deixava cair uma torrente de água atrás do homem de gabardina especado à porta, como um véu que só se transpõe num único sentido. Voltar para trás, para a chuva insistente, era impossível. Sentia o nariz gelado e o pingo que se formava na ponta teimava em não cair. Não o ia sacudir com a mão. Não, ela estava aninhada no bolso a envolver o cabo de um revólver. E só ia sair de lá quando fosse para o disparar.

A porta abriu-se. Os olhos acima de um pescoço duplo de mulher olharam-no como se fosse a falsificação de um jarro ancestral.
— O que é que quer?
— É aqui que mora o Iuqui? — Os olhos da matriarca tremeram por uma fração de segundo, a única expressão de que o nome tinha surtido efeito.
— Não.
— Não?
— Não. — Os mesmos olhos fundos percorreram-no de alto a baixo e suavizaram só ligeiramente. A imagem de um homem encharcado, de olhos descaídos tocaram-lhe algures lá dentro, além da carapaça volumosa. — Ele já não mora aqui.

A mulher percebeu a hesitação do estranho que olhou aleatoriamente da casa no topo do morro até às montanhas distantes, envoltas na neblina da chuva. Permaneceram os dois imóveis por momentos, a mão a envolver o revólver a afrouxar.
— Não me sabe dizer para onde é que ele foi morar?
— Ninguém sabe.
— Como assim?
— O Iuqui é um Desaparecido. — A palavra deve-lhe ter arranhado a garganta porque o corpo da mulher curvou-se violentamente num espasmo de tosse seca. O homem de gabardina parecia ter sido atingido com uma mão aberta pois estava lívido quando o olhar nublado acima do pescoço duplo se prendeu nele novamente. A mulher pigarreou e continuou.
— Juntou-se àqueles que saem um dia para ir trabalhar e não voltam. A pasta que levava na mão foi encontrada em cima de um banco na estação. O casaco delicadamente dobrado sobre ele, com o forro para fora para não sujar o –
A menção da mala suscitou o interesse do estranho que se inclinou para a frente, cortando a meio a frase da mulher.
— Sabe o que estava dentro dessa mala?
— O que eu não sei é quem o senhor é.
Ele acenou, pensativamente.
— Claro. Posso entrar?

A mulher lançou um olhar fugidio sobre o seu ombro para o interior escurecido atrás de si. Empurrou a porta, dando-lhe o espaço necessário para passar. Ele curvou-se, agradecendo o gesto. Passou o limiar da porta para uma sala ampla na penumbra. Além dos painéis translúcidos por onde passava a luz cinzenta filtrada pela chuva, reconheceu a silhueta de um jardim de pedra. O som gorgolejante de uma cascata artificial sobrepondo-se ao som adormecido da água na rua. Descalçou-se e retirou a gabardina. Gotas escorreram e pingaram para o chão de madeira brilhante recentemente encerado. Uma mesa baixa no meio da sala suportava duas chávenas de chá fumegantes. O aroma de ervas quentes chegou-lhe ao nariz e precipitou a gota que de lá pendia em direção ao chão.
— Está à espera de alguém? — perguntou o homem a dar um passo atrás. A mulher chocalhou o queixo ao dizer que não vigorosamente.
— Não é nada. Sente-se.
O homem baixou-se e sentou-se de pernas cruzadas diante da mesa.
— Quer que lhe sirva um chá? — O homem olhou para a chávena à sua frente, largou o revólver e rodeou a chávena com as mãos para as aquecer. Ela congelou a meio da descida para se sentar e olhou em volta disfarçadamente.
— Chamo-me Temon. — A mulher ignorou-o, semicerrando os olhos quando o vapor do chá lhe nublou a vista. Deu um trago audível e manteve os olhos fechados.
— Porque é que está aqui?
— Tinha contas a acertar com o Iuqui.
Ela esperou. Lá fora a chuva abrandou e o tempo acompanhou-a. O homem perdeu o olhar no líquido âmbar à sua frente, tentando ler os seus reflexos como sinais.
— Há vários anos, eu era um escritor.

Um som veio do jardim de pedra, como um seixo a rolar e a cair na água. Ele olhou-a sobressaltado, mas os seus olhos permaneciam fechados. A cabeça apoiada no queixo duplo, os cantos da boca desacídos, como um buda adormecido. Ele continuou.
— Como eu estava a dizer. Era um escritor. Pelo menos eu achava que era. Sentia que era. Mas nunca tinha escrito nada. Até ao dia em que fiz uma caminhada até ao topo do vulcão de Ina. Quando me sentei a descansar da subida, adormeci encostado a uma rocha. Quando acordei desceu sobre mim uma história que eu tinha de contar. É como consigo explicar o que aconteceu. Era como se me tivesse sido oferecida, caída de uma nuvem de passagem. E eu decidiria se a iria contar ou não. E decidi contá-la.

Outro som precipitado chegou do jardim. A água da pequena cascata parecia ter duplicado de volume. O gorgolejar tinha-se tornado numa torrente de água. Temon endireitou-se e tentou discernir as formas além dos painéis translúcidos. Uma sombra movia-se como fumo, dançando por entre os conjuntos de pedras ornamentais. A voz da mulher interrompeu-lhe a descoberta.
— E então?
— E então? — repetiu ele, de olhos irrequietos. — Ah, sim. Comecei a escrever a história. Quase como se estivesse possuído. Depois encontrei trabalho. Um trabalho honrado em sociedade e deixei a história adormecer numa gaveta. Eu tinha intenção de a continuar um dia. Mas estava ocupado.
— Claro. — disse ela sem o mínimo toque te convicção na voz.
— Anos mais tarde, quando passava os olhos pelos livros de uma banca de livraria, vi-o. O meu livro, com o mesmo título. Acabado e publicado. Peguei-lhe com mãos fracas do susto. Não sei porque é que estava à espera de ver lá o meu nome, mas estava. Claro que não o vi. Vi o de Iuqui. O homem que me roubou a história.
— Hmm. Como é que sabe que ele a roubou?
— De que outra maneira é que isso seria possível? — perguntou Temon a subir a voz. —- Deve ter-me seguido um dia, entrado em minha casa, forçado a fechadura da gaveta e tirado o manuscrito do seu interior.
— A gaveta tinha a fechadura forçada?
Ele ignorou a pergunta e continuou a falar.
— Vim aqui para acertar contas com ele e retomar a minha honra como o autor da história.
A mulher atirou a cabeça para trás e largou uma gargalhada sonora. Os painéis translúcidos tremeram com a força do som. Temon inclinou a cabeça estupefacto.
— Como é que isto tem piada?
— Acha mesmo que alguém é o dono de alguma história? — Os seus olhos não estavam para brincadeiras. Furavam-lhe os seus como lanças. — Não me disse que a história lhe tinha sido entregue? Como é que pode assumir que é sua?
O homem encolheu-se, confuso perante o disparo de perguntas.
— As histórias são de quem as apanhar. — continuou ela. — Se deixou a sua fugir, muito provavelmente porque ela se fartou de esperar, a culpa é só sua. A sua história foi entregue a outro. Outro mais aberto a aceitar a inspiração.

Temon sentia o coração a martelar-lhe nos ouvidos. A mulher sorveu o chá e esboçou um sorriso de antecipação. Um dos painéis que davam para o jardim deslizou suavemente, revelando o exterior húmido. Lá fora, a água da cascata saltava por entre pedras escuras e brilhantes. O ar cheirava a musgo e a folhas molhadas. Um bonsai, com as folhas vermelhas de outono, cortava o cinzento de fundo como um rubi. Sentado sobre uma grande pedra na margem da água estava uma figura envolta num manto que lhe tapava também a cabeça. Tinha as pernas dobradas, os joelhos encostados ao corpo, e o queixo assente sobre eles. Observava a água a cair.
Temon virou-se para a mulher e falou num sussurro.
— Quem é aquele?
Ela ignorou-o uma vez mais.
— Lembra-se da mala que Iuqui deixou no banco da estação?
O homem voltara a observar a figura no jardim de pedra. Ela continuou.
— Lá dentro, Iuqui deixou uma história por acabar. Assim como a história que te foi dada a ti, Temon, esta inspiração foi-lhe dada a ele. Mas ele não teve a coragem necessária para a aceitar. Por isso decidiu fugir e deixá-la voar para outro. Outro que esteja disponível para trabalhar com um demónio da inspiração. — A mulher curvou-se e retirou um bloco de folhas amareladas debaixo da mesa. – Esta história está à tua espera Temon. Tens coragem?

Lá fora, a figura levantou-se e virou-se para o interior da sala. Sob o manto negro, uma pequena criatura de olhos roxos luminosos sorriu ao homem da gabardina. Os seus dentes pontiagudos reluziram como pequenos diamantes. Temon sentiu-se repentinamente inebriado de excitação. Aquela excitação que surge no peito e que pode ser medo. Mas que também pode ser inspiração. Virou-se para a mulher que o observava de olhos muito abertos e pegou no manuscrito sobre a mesa. A primeira folha, coberta por uma película de pó, revelava o título da história. Depois, virou-a e começou a ler.
A mulher levantou-se, com muitos anos sobre as costas.
— Vou preparar-te o quarto, Temon. — Depois olhou para o pequeno demónio de jardim que estava agora entretido a fazer desenhos na água. — E tu. Vê lá se te portas bem desta vez.