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O chão gretado debaixo dos meus pés lançava para o ar nuvens de pó que se uniam num nevoeiro vermelho à medida que as minhas passadas o perturbavam. Impedia-me de ver com clareza a escada de corda que balançava do céu à minha frente. Mais um esforço para a conseguir alcançar. Só mais um esforço. Eu devia ter algures no meu corpo uma bomba de energia armazenada, mas temia perder o impulso necessário para continuar se abrandasse para a procurar. Os braços impulsionavam-me, um de cada vez, de cada lado, imparáveis. As pernas impelidas pelas descargas dos músculos demoravam cada vez mais a responder às ordens do meu sistema nervoso. Do mesmo modo, a corda se afastava-se cada vez mais ao contrário de se aproximar.

O objeto voador de onde pendia a escada subiu, e ela com ele, desaparecendo entre as nuvens como se tivesse sido puxada por um pescador desapontado com a falta de peixe a morder o isco. Eu congelei a meio da corrida e lancei as mãos ao cabelo desgrenhado. Não! A respiração ofegante curvou-me o corpo num espasmo e amparei-me com as mãos nos joelhos; gotas de suor encheram-me os olhos como lágrimas. Sentei-me no chão poeirento e nu e olhei por entre as farripas de cabelo ao longo do horizonte. Não havia sinais do zepelim nem da escada. Acima do teto de nuvens pesadas que se estendia até onde o olhar se perdia, estava a ilha de rocha suspensa, o Rochedo. Eu não o via, mas sabia que estava lá. Aliás, tinha quase a certeza que estava lá. Afinal de contas, nunca ninguém o tinha visto e tinha voltado para contar a história.

Eu estava acampado há vários dias num ermo do deserto do Nada, ansiosamente à espera de ver um zepelim passar. Eram mais raros do que unicórnios, dizia-se. No entanto, um antigo mito que se tinha propagado durante anos nas zonas frias além do deserto confirmava a sua existência. Segundo a crença, um destes objetos voadores cobertos de escamas de um verde tão brilhante que ofuscava, furava a camada de nuvens uma vez por ano e cruzava os céus vindo do Rochedo até ao pico da montanha do Nunca, situada a vários quilómetros de distância. Mantinha-se sempre acima das nuvens, invisível aos olhos dos habitantes do deserto que tinham deixado de olhar para o céu há muitas gerações, e apenas baixava de altitude, por razões desconhecidas, perto do desfiladeiro do rio Sem Fim, onde abrandava. Era como se o piloto desejasse mostrar aos seus passageiros o cenário deslumbrante do rio veloz a cortar por entre a terra estéril. Quem tivesse coragem, podia agarrar-se à sua escada de corda e subir além do teto negro de nuvens, em direção ao Rochedo.

Decidi ir em busca dessa visão rara e, quem sabe até desvendar o mistério, tendo recebido no dia da minha partida olhares de pena e desagrado das expressões negras dos homens e mulheres que só olham para o chão. Após noites a dormir ao relento gelado, rodeado de arbustos secos e lagartixas, fui acordado de um sonho onde passeava à luz do sol entre edifícios de cristal suspensos acima de um manto branco. Ao despertar, apercebi-me que um zumbido dormente preenchia os espaços e deixava inquietos os escorpiões sob as rochas. Fui encadeado pela força da luz esverdeada que emanava de algo abaixo das nuvens densas. Era ele. Era o zepelim. Deslizava sem pressa como uma baleia de barriga cheia ao longo do rio Sem Fim. As suas escamas brilhantes, como jóias, sobrepunham-se num encadeamento perfeito acima de uma fileira de pequenas janelas. Da sua grande pança pendia a escada de corda suspensa como uma minhoca a contorcer-se à espera de um animal esfomeado.

Foi aqui que comecei a correr. Se tivesse parado para pensar, tinha tomado logo uma bomba de energia para aguentar a corrida. Mas não pensei. O zepelim estava agora a aproximar-se das margens dos desfiladeiro. E era agora ou nunca.

Agora, depois da oportunidade perdida, sentado na poeira vermelha, passei uma mão coberta de pó pela cara, fechei os olhos a arder e suspirei. Agora, era o nunca.

Quando voltei a abrir os olhos, o dia tinha escurecido. A escada de corda estava suspensa à minha frente. Com medo de a assustar como a um animal silvestre, levantei-me em câmara lenta e pendi a cabeça para trás para observar com espanto o grande objeto voador estranhamente inerte sobre mim. Com uma mão pouco segura, aproximei-me da corda e agarrei-a; a sua superfície irregular a picar-me a palma da mão. Com as duas mãos seguras, a escada em desiquilíbrio desenhou um círculo acima da terra. Ganhei equilíbrio aos poucos até me separar do chão vermelho em direção a um alçapão aberto e escurecido a metros de distância. O zepelim foi ganhando altitude e quando cheguei ao fim da escada as nuvens que atravessávamos entraram comigo para dentro do espaço como o nevoeiro antes da revelação num espetáculo de magia. Lá em baixo, o rio Sem Fim serpenteava como uma cobra a fugir de um falcão.

No interior do zepelim um corredor levava a um grande salão branco. Lá, sentados ao redor de mesas repletas de iguarias, estavam homens e mulheres, exatamente iguais aos que eu tinha deixado no deserto. Mas estes, contrariamente aos outros, observavam-me com olhos luminescentes. Um homem, como o meu reflexo no espelho, orientou-me com os seus olhos brilhantes na direção da janela de vidro. Lá fora o sol intenso iluminava o manto das nuvens como um mar nunca antes navegado e, ao longe, uma ilha no céu, como um rochedo.