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— Estou a morrer de sede. — disse ela a inclinar a cabeça para trás sob o sol escaldante.
— Vamos parar ali mais à frente para beber água. — disse ele a apontar para uma árvore isolada no vale. Os ramos mais altos balançaram ao sabor de uma brisa invisível como que a chamá-los para perto. Tinham saído do trilho principal há mais de duas horas e estavam cada vez mais embrenhados no meio da terra arrepanhada de montes cobertos de vegetação rasteira. Alguns abutres circulavam no céu à sua frente.
— É só esta a água que temos? — perguntou ela ao pegar na garrafa a chocalhar.
— É. Mas devemos estar quase a chegar. — respondeu ele a ouvi-la despejar o resto de água para dentro da boca. Ela limpou-se com a manga e olhou-o no olhos à espera de conseguir ler o que lhe ia na cabeça. Não era fácil. Ele tinha um ligeiro sorriso estampado nos lábios em sinal de otimismo. Ela retribuiu-lhe o sorriso só com um lado da cara.
— Vamos continuar? — perguntou ele, mais para ele próprio do que para ela.
— Tenho só de ir tratar ali de um assunto que ninguém pode tratar por mim. — disse ela a apontar para um arbusto espesso.
— Claro. Eu espero aqui.

Ele viu-a afastar-se. As botas cobertas de pó. A sua sombra pequena sob o sol vertical. Quando ela desapareceu atrás da vegetação ele meteu uma mão no bolso. Confirmou que ela não estava a olhar e retirou uma bússola que apoiou na mão aberta. Depois de forçar os olhos a focar o pequeno instrumento sob a luz branca do sol, o ponteiro do norte apontou em frente, ao longo do caminho que seguiam. Ele suspirou e olhou para o horizonte onde dançavam ondas de calor. Deviam estar a ir para sul.
Ele ouviu ramos a remexer à sua direita e apressou-se a enfiar o instrumento no bolso.
— Estou pronta.
— Vamos.
— É para continuar em frente?
— É.

— Pára.
— O que foi?
— Ouviste aquilo?
— Não. O que é que foi? — perguntou ele a rodar sobre os calcanhares em todas as direções.
— Pareceu-me ouvir qualquer coisa a vir daquele lado.
— Dali?
Olharam os dois para um aglomerado de rochas ligeiramente elevado. Ele pegou nos binóculos que trazia ao pescoço e focou a área de interesse ao longe. Enquanto ele observou as rochas, silencioso, ela observou-o a ele. Uma gota de suor isolada escorria-lhe ao longo da orelha esquerda. Conseguia perceber que as sobrancelhas estavam juntas numa linha inquisidora.
— Mas o que é que ouviste mesmo?
— Pareceu-me uma voz.
Ele deu um passo inquieto sem sair do mesmo sítio.
— Vou lá ver. — disse ele. Depois afastou os binóculos e fitou-a. Ela achava que também conseguia perceber esta expressão. Parecia mais circunspecta, com os cantos dos lábios ligeiramente virados para baixo.
— Vou contigo?
Passaram dois segundos antes de ele lhe responder.
— Não. É melhor não. Esconde-te atrás de um arbusto.

Os dois separaram-se, caminhando em direções opostas. Ela quis olhar para trás para ter a certeza de que ele estava a ir para o aglomerado de rochas, mas achou que seria uma ação imprudente. Ou será que o estranho seria não olhar, para confirmar que estava tudo bem? Os testes de empatia que faziam a androids eram uma piada.

Quando um humano chora? > Enrugar a testa e juntar as sobrancelhas.
Quando um humano ri? > Sorrir ligeiramente, mesmo que não se saiba o porquê.

Mas depois na realidade eram colocados em situações dúbias que não conseguiam ler. Exibiam um sorriso de satisfação em vez de um sorriso de pesar num funeral e, claro, tornavam-se demasiado óbvios. Mas ela acreditava que tinha um dom especial. Conseguia ler bem as nuances complicadas dos humanos. Exceto as dele. Ele era um desafio.

Quando chegou ao arbusto e se virou para o observar entre os ramos secos não o viu em lado nenhum perto das rochas. Os seus olhos lançaram-se para cima e para baixo ao longo do caminho, mas nada. O seu sistema fez um bip de alarme. Não muito longe dali os abutres rodopiavam incessantemente como se tivessem encontrado uma carcaça. Será que eles previam quando um animal ia sucumbir ao calor e simplesmente esperavam?

Começou a atravessar o caminho, primeiro a andar calmamente, depois, a correr. Não estava preocupada com o som que tinha ouvido da área das pedras porque na realidade não tinha ouvido nada. Subiu a rocha mais alta e olhou para todos os lados. Ele tinha desaparecido. E ela, claramente, tinha sido desmascarada. Qual teria sido a dica? Não lhe ter perguntado se queria o resto da água? Tivera dúvidas nessa situação. Mas hesitar tinha sido ainda pior. Mas não, já deve ter sido antes. Ele também deve ter as suas qualidades. Caso contrário não seria um alvo tão importante a abater.

Ele mexeu-se desconfortável. O arbusto seco onde se tinha enfiado tinha uns picos afiadíssimos que atravessavam a roupa. Esperou imóvel e finalmente viu-a aparecer sobre as rochas. O corpo esguio, como um gato, saltou de rocha em rocha até ao ponto mais alto. Os abutres ao longe formavam-lhe uma coroa em movimento sobre a cabeça.
Este trabalho estava a ser mais complicado do que originalmente esperara. Ele tinha quase a certeza que ela o enganara com um som que não tinha ouvido. Estava demasiado calma, pouco interessada em perceber que ameaça os esperava atrás das rochas, e mais interessada nele próprio. Provavelmente já o tinha topado. Mas claro que ela também devia ter as suas qualidades. Caso contrário não seria um alvo tão importante a abater.

Quando ouviu o som de ramos secos a estalar era tarde demais. Uma mão arrastou-o para fora do arbusto, os picos a rasgarem-lhe a pele. Os seus olhos cruzaram-se. Ela não estava satisfeita. Era a primeira vez que o demonstrava e isso deu-lhe a ele alguma satisfação. Podiam deixar cair as máscaras.
— Quem és tu? — perguntou-lhe ela entre dentes.
— Sou um guia, não é óbvio? — respondeu ele com um sorriso aberto.
Ela inclinou a cabeça, intrigada. Estavam agora os dois sentados no chão seco. As cigarras cantavam alto. Ela tinha afrouxado a mão que lhe agarrava a perna.
— Não percebes sarcasmo?
— Claro que percebo.
— O que é que eu estou a sentir agora?
Ela inclinou agora a cabeça para o outro lado.
— Medo?
Ele riu-se com vontade.
— Não. Estou mais divertido do que outra coisa.
— Não me vês como uma ameaça, é isso? – perguntou ela. Alguma coisa doía-lhe lá dentro no peito.
— Claro que vejo. Mas pelo menos agora podemos falar abertamente, o que torna a coisa mais interessante.
Ele sacudiu o pó da roupa e fez um trejeito com a boca ao passar por cima de cortes nos braços. Estendeu-lhe a mão.
— Sou o Dia. E não sou guia. — rematou a rima com mais uma exposição de dentes brancos. — Sou um assassino profissional ao serviço da coroa deste planeta.
Ela levantou um canto da boca, incerta se estava com vontade de ter contacto com a pele de outro ser. Finalmente acedeu dar-lhe a mão.
— Sou a Noite. E não sou diplomata a ir para a Conferência de Estados. Sou um adroid programado para te matar.
Ele apertou-lhe a mão com força e puxou-a para si. Os dois rebolaram pela terra. Ele puxou de um punhal escondido debaixo do braço; ela ativou a descarga elétrica para os dedos e colocou-lhe a mão à volta do pescoço.

Quando a noite desceu e as duas luas subiram no céu por entre as estrelas, o frio instalou-se. Os abutres estavam recolhidos nos seus ninhos, adormecidos; os seus bicos aconchegados por entre as penas insufladas. Antecipavam com satisfação o pequeno almoço reforçado que iam ter aos primeiros raios de sol.