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O João mastigava uma bolacha e dava pontapés nas pedras soltas enquanto caminhava ao longo do muro. Este não era o caminho que o trazia da escola, mas o que o trazia de um dia de deambulações pelo campo. Insetos esvoaçavam na sombra fresca e brilhavam como partículas de pó cada vez que cruzavam os feixes de luz de verão a penetrar as copas das árvores. O ar cheirava ao musgo seco que crescia nas pedras antigas e rugosas. Para a sua esquerda o terreno descia por entre os sobreiros até ao campo aberto onde ondulavam as papoilas vermelhas. Para a direita ziguezagueava o muro que o separava de sabe-se lá o quê.

O caminho que seguia levava-o até ao limiar da aldeia onde vivia com a sua avó. Por esta altura ela já o esperava, enterrada entre as almofadas do sofá na pequena sala sombria. Quando ele batesse à porta, ela iria espreitá-lo da pequena janela que furava a parede espessa e mantinha o calor do dia afastado. Ela dir-lhe-ia para entrar na penumbra e para se sentar com ela, e contar-lhe o que se passara durante o dia. Ela iria querer saber como tinha corrido a escola, e ia olhá-lo com as suas azeitonas pretas prescrutadoras e desconfiadas. Mas quem sabe até lhe ofereceria um prato de bolachas cozidas no forno a lenha. E um copo de leite fresco. Por agora ainda tinha de acabar o percurso ao longo do muro que escondia do outro lado o desconhecido. Ainda não era alto o suficiente para conseguir espreitar, mas até podia ser um pomar com frutas maduras prontas a serem apanhadas. Talvez fosse algo que valesse a pena descobrir.

Mais à frente reparou numa reentrância nas pedras que nunca tinha reparado antes. Quando se aproximou, abriu muito os olhos ao perceber que era um pequeno buraco circular, com uma curva bem redondinha, que atravessava o muro de um lado ao outro. Aproximou o olho até as pestanas tocarem na pedra e focou o que o esperava do outro lado. À sua frente pendia de uma árvore uma maçã vermelha, tão redonda como o buraco por onde espreitava. Um raio de luz iluminava-a como se estivesse num palco, revelando-a brilhante e sumarenta.

O facto de não ser época de maçãs não o demoveu de tentar trepar o muro com garra. As pontas dos pés em equilíbrio instável nas finas ranhuras entre as pedras; as pontas dos dedos, como pinças, a tentar desafiar a gravidade. Com uma acrobacia digna do circo, o João tombou para trás aterrando em cheio nas urtigas. Pelo orifício chegou-lhe uma risadinha. Ele levantou-se com um movimento brusco como se finalmente sentisse as picadas das urtigas nas mãos e voltou a espreitar pelo buraco. Quem era o parvalhão que se estava a meter com ele? Só podia ser o Carlos. Se não fosse pelos amigos brutamontes do Carlos-com-Dentes-de-Coelho com quem cruzava o recreio da escola com ares convencidos, seria tão gozado como o João. Por essa razão, e por outras razões sumarentas que pediam de árvores, o João-Trinca-Espinhas fazia muitas vezes este caminho que o levava para longe da escola em tempo de aulas. Sem dizer nada, começou a correr ao longo do muro à procura do sítio ideal para subir. Caramba, estes muros eram tão velhos, havia de certeza algum sítio no topo de onde teriam caído algumas pedras.

Numa zona em que o muro se afastava do caminho, entrando pela zona sombria dos carvalhos, o João não deu de caras com um muro em ruínas, mas sim com um portão de metal compacto digno de uma daquelas casas assombradas no topo de um monte com a lua cheia por trás a revelar os seus contornos retorcidos. Será que isto era afinal a propriedade privada de algum senhor? Sentado no seu sofá de pele no seu solar húmido a ver as brasas da lareira apagarem-se?

Passou os dedos melo metal e observou o desenho em espiral que começava na fechadura. Os seus olhos desenharam-na, parando só na curva final rematada por um trevo de quatro folhas. Fechou os olhos e, por entre os seus olhos semi-adormecidos de bebé, viu a sua avó a cantar-lhe uma canção de embalar junto à janela. Do outro lado do vidro, um melro preto de bico laranja acompanhava a canção com um trinado límpido. Encostando a cabeça ao peito da sua avó sentiu o bater do seu coração junto ao ouvido, mesmo atrás da corrente que tinha ao pescoço. A corrente de onde pendia uma pequena chave dourada com o relevo de um trevo de quatro folhas.

O reviver da memória rebentou como um balão de água na sua cabeça. Lembrava-se da chave que a sua avó tinha usado cada vez menos ao pescoço, até deixar de a usar por completo. Só podia estar guardada num sítio. Na pequena caixa de madeira escondida debaixo da cama. Lembrava-se, já mais crescido, de ter levado dois berros, daqueles que não dão margem para argumentação, quando numa das suas deambulações pelo quarto da avó, tinha enfiado a mão pela boca escura que era a parte de baixo da cama. Ainda viu os padrões de embutidos da caixa, mas não chegou a ver o que estava no interior.
Respirou fundo o cheiro da cortiça e das flores quentes e viu a luz do pôr-do-sol refletida à sua frente no metal brilhante. O dia estava a chegar ao fim. Se queria descobrir o que estava para lá deste muro, tinha de o fazer antes de escurecer. E já só tinha menos de uma hora. Quando rodou nos calcanhares para o caminho que o levava a casa pareceu-lhe ouvir outra risadinha atrás de si.

— Mas onde é que tu andaste? — perguntou a avó de lenço preto da cabeça. Tinha uma mão inquieta na ombreira da porta e olhos negros desafiantes.
— Desculpa, avó. Distraí-me com uma coisa pelo caminho.
— Andaste a apanhar fruta, não foi?
— Uh, sim. Umas laranjas perto da casa do Armindo. — olhou de soslaio para a avó, mas ela pareceu não reparar que as laranjas estavam fora de época. A preocupação devia estar a toldar-lhe o juízo.
— Isto são umas ricas horas. As aulas hoje duraram mais tempo?
— As aulas? Sim.
Ela agarrou-lhe no braço com uma força que não seria de esperar de dedos deformados pela artrose.
— Foste à escola?
— Onde é que eu havia de ter ido?
— Andam a meter-se contigo outra vez? João, tens de enfrentar os teus medos.
— Tu é que me metes medo! – disse ele a rir.
Ela suspirou e largou-o.
— Apressa-te a ir para o banho que já te pus lá água quente. Já deve estar gelada.

Da minúscula casa de banho, o João olhou para a cozinha com a fogueira acesa no chão e um pote preto de três pernas sobre o lume. A sua avó, de costas voltadas para ele, depenava alguma coisa deixando penas pretas pairar até ao chão.

Pé ante pé, o João atravessou o corredor e abriu a porta do quarto da avó. A cama singela com os lençóis impecavelmente esticados jazia no meio do quarto, envolta no aroma de alecrim e sabão. O João deitou-se no chão torto de madeira e esticou um braço por baixo da cama. Por momentos a esperança tremeu quando tateou e não encontrou nada. Mas lá estava ela, a pequena caixa, encostada contra a parede. Com suores frios a percorrerem-lhe o pescoço, tentou não pensar nas consequências dos seus atos. Simplesmente enfiou a caixa de baixo da roupa, saiu do quarto em direção à porta da rua, e começou a correr. Quando teve coragem de olhar para trás, viu a sua avó à porta, de braços cruzados, o lenço negro a toldar-lhe os olhos. Por baixo deles… um sorriso?