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Tempo de leitura 7 minutos

As sombras esticavam-se nos campos, prontas para adormecer entre as ervas altas. As cigarras calavam-se quando ele passava e os pássaros ajeitavam-se nas copas das árvores. O João correu pelo lusco-fusco a dentro, com medo de ser apanhado pelos raios fantasmagóricos que se arrastavam do outro lado da serra onde o sol se punha.

Isto estava a começar a parecer-lhe uma parvoíce. Ainda nem tinha aberto a caixa aninhada debaixo da blusa. Quando chegou ao portão, já não se refletia lá a luz; esta era engolida, como o seria por um buraco negro. O João revelou a caixa por entre mãos trémulas. Levantou a tampa com o coração a bater descompassado e viu no interior uma chave decorada e um papel dobrado em dois. Pegou no papel e abriu-o. Uma curta frase dançava a tinta preta sobre o fundo amarelado pelo tempo. O João não era exímio na leitura, mas juntado letra a letra leu nas letras tortas da avó:

Não abrir o portão.

Lindo serviço. Estava a acumular transgressão sobre transgressão. Mas não podia evitá-lo. Tinha de saber o que estava além do muro. E agora tinha a certeza de que a chave abriria o portão. A chave, fria ao tato, deslizou pela ranhura como se fosse ali usada todos os dias. As duas metades do portão separaram-se. Com os sentidos em alerta, o João deu um passo em frente. Do outro lado chegavam-lhe os mesmo sons e aromas do início da noite. A lua subia agora no céu, banhando o montado com uma névoa luminosa. O melhor era voltar para trás. Inventar uma desculpa, de que tinha perdido a chave, qualquer coisa, e voltar cá noutro dia.

Uma risadinha, de quem na verdade não tem vontade de rir, chegou-lhe de novo aos ouvidos.
— Eu faço-te num oito, estás a ouvir? — gritou o João a sentir a cara a ferver. Se começasse agora a correr podia ser que ainda escapasse dali vivo.
— Tem calma, rapaz.
O João esbugalhou os olhos e manteve-os fixos no sobreiro à sua frente de onde lhe parecia ter vindo a voz melosa. O sangue que momentos antes lhe aquecia as bochechas desapareceu, correndo pelas veias em direção ao chão como se a gravidade tivesse triplicado.
— Quem é que falou?

Ao lado do tronco, de uma cortiça que parecia nunca ter sido tirada da árvore, revelou-se uma figura sentada. Ajustando os olhos à luz mortiça, o João viu um homem. Um homem de barba. Da sua cabeça saiam dois cornos torcidos. Do seu peito nu prolongavam-se duas pernas de bode. Um dos cascos rugosos e carcomidos batia impacientemente numa raíz exposta. Os olhos da criatura estreitaram-se numa fina linha desafiante.

O João deu meia volta em direção ao portão, mas estava fechado. Correu por entre as árvores, esbarrando contra ramos e arranhando os braços nas cortiças centenárias. Perdeu o chão debaixo dos pés num declive e rebolou por entre os sobreiros, embatendo na árvore que o parou. Atordoado com a queda, o João deixou-se ficar deitado, quieto e de olhos fechados.

— Psst.
O som desceu-lhe do topo da árvore e o João entreabriu um olho, esperançoso de que fosse ver o teto do seu quarto e o nariz curvo da avó a espreitar pela porta. — Pssssst! Aqui!
Num ramo de ângulos irregulares um mocho rodava a cabeça para o observar.
— Sim, fui eu que falei. — disse o mocho. — Moveu a cabeça no sentido oposto como um boneco articulado e, como se falasse para alguém ou alguma coisa pousada noutro ramo, disse:
— A sério que já começo a ficar farto de ter de repetir a mesma coisa sempre que chega aqui um miúdo novo.
— Tu falas? — perguntou o João a achar que tinha batido com a cabeça.
Ainda de cabeça rodada, o mocho disse:
— Estás a ver. Era exatamente disto que eu te estava a falar, Clarice. — O grandes olhos da ave voltaram a focá-lo. — Sabes onde estás?
— Estou além do muro.
O mocho negou várias vezes com a cabeça, exasperado.
— Isso é óbvio. O que eu pergunto é se sabes onde estás.
— Não.
— É agora que entra a minha deixa. Estás além do muro.
O João, ainda deitado entre as folhas, juntou as sobrancelhas.
— Pensava que isso era óbvio.
— Não sejas impertinente, rapaz. Sabes porque estás aqui?
O João optou por não responder desta vez. O que ele queria saber é como ia sair dali.
— Estás aqui para veres o que precisas de ver. – disse o mocho a insuflar as penas.
— Não me lembro de precisar de ver um mocho falante.
O mocho voltou a rodar a cabeça, desta vez mais rápido, e falou para o espaço atrás de si.
— Este é dos que acham que são espertos.
— Estás a falar com quem?
— Mete-te na tua vida, rapaz. Achas que ainda não tens problemas que cheguem? — piscou um olho amarelo de cada vez e abriu o bico na direção do rapaz estendido no chão. — Pensa naquilo que eu te disse. E agora, corre, rapaz. Corre!

A urgência nos olhos do mocho fê-lo levantar-se e começar de novo a correr. Entre os pios da ave surgia o som de cascos a bater no solo fofo de folhas. Um grito dilacerante cortou o ar húmido e fez-lhe gelar o sangue nas veias. A voz da criatura meio-homem, meio-bode falou-lhe de longe como se lhe sussurrasse ao ouvido.
— Anda cá.
— Não! Deixa-me!
— Anda cá, fedelho.
— O que é que tu queres? — perguntou o João a tentar conter as lágrimas.
— Não aparecem aqui muitos humanos, sabes? — de trás de um arbusto rasteiro mesmo à sua frente, saltou a criatura com um esgar onde brilhava a luz do luar. — E eu estou tão fraco. Estou tão cheio de fome.

O João lançou-se de novo numa corrida desenfreada entre as árvores até ver uma luz como um farol na base de um grande carvalho. Esculpida no grosso tronco da árvore estava uma porta de madeira entreaberta. A luz escorria do interior oco para o ar húmido da floresta. O João escancarou a porta com um movimento brusco e atirou-se para o interior da árvore. Lá dentro, uma pequena sala curva abriu-se perante os seus olhos. Parecia que alguém descarregara a sua fúria nos objetos que a compunham. Uma mesa tombada com livros de capa dura espalhados pelo chão; frascos rachados com restos de líquidos coloridos desordenados em prateleiras; tachos vazios atirados ao acaso, e uma manta enrolada em frente ao fogo apagado que não aquecia a sala. Uma poltrona de tecido rasgado e uma criatura meio-homem, meio-bode sentada nela. As pernas cruzadas e, novamente, um casco a bater impacientemente no chão de terra.
— Ainda bem que decidiste juntar-te a mim. Estava a ficar cansado, e já não tenho muita energia. — A criatura massajou com suavidade a pêra encrespada que lhe crescia no queixo.
O João olhou para trás, para a porta que já estava fechada.
— O que é que queres? — perguntou o rapaz de olhos arregalados.
— Preciso de me alimentar e esta floresta maldita já não tem nada para me oferecer. Preciso de alguém assim, jovem como tu.

O ser híbrido saltou da poltrona e atirou-se ao João. Abriu a sua boca num grito fedorento mesmo em frente ao seu nariz e pôs-lhe as mãos peludas à volta do pescoço. O João tentou falar para argumentar, mas a sua voz saiu-lhe num pio. Um pio sonolento, como o do mocho falante. Prestes a desistir de lutar, o João viu na sua memória a ave de penas insufladas no troco irregular. “Estás aqui para veres o que precisas de ver.”

O João fechou os olhos e imaginou o meio-homem, meio-bode encolhido no canto da sala a chorar de solidão. Uma criatura fantástica, mas, no fundo, um homem como qualquer outro homem, sem nada de especial. Um mero mortal fraco e esfomeado. Imaginou-o cada vez mais pequeno, cada vez mais pequeno. Minúsculo. Sentiu as mãos no seu pescoço a afrouxarem e a largarem-no. Quando o João abriu os olhos, a criatura tinha reduzido para o tamanho de um gafanhoto. Furiosa, tentava trepar pela perna do João, mas foi sacudida com um pontapé. O rapaz levantou-se e apercebeu-se da sua própria altura. A criatura olhou-o com olhos invejosos e aninhou-se na manta, vencido.
— Desaparece, fedelho. — disse a criatura. — O próximo que aparecer por aqui não vai ter tanto sorte. Já não tenho nada a perder.

Antes do João sair do tronco da árvore, viu o estranho ser a olhar com determinação para os frascos meio-vazios nas prateleiras.

Lá fora, o ar frio da noite cobriu-o como um bálsamo. Andou vagarosamente por entre os sobreiros e apreciou os sons da noite. O que antes lhe parecia ameaçador era agora fascinante. O muro encontrou-o satisfeito a passar os dedos em cortiças centenárias e a sussurrar a melodia que a avó lhe cantava quando era pequeno. O portão estava aberto e o João saiu, fechando-o atrás de si.

 …

O Carlos assobiava no caminho para a escolha quando foi abalroado sem dó nem piedade. Rebolou pelo chão até parar com a boca a comer o pó do chão seco de verão. À sua frente afastava-se uma bicicleta a grande velocidade. Ele reconhecia aquele trinca-espinhas em qualquer lugar. Era o badameco do João. Mas se ele achava que fazia farinha com ele estava muito enganado. O grupo já o apanhava no recreio. No mínimo uma sova. No máximo, bem, no máximo a imaginação era o limite.

Endireitou-se com uma dor dilacerante num cotovelo. Quando ainda rogava pragas impróprias para serem ouvidas por pessoas de bem, reparou num objeto brilhante a revelar-se entre o pó que assentava agora no chão. Uma chave brilhante, com um trevo de quatro folhas esculpido no metal. Atada a ela com um elástico um pequeno papel que o Carlos se apressou a abrir:

Não abrir o portão.

O Carlos largou uma gargalhada. Se aquele palerma achava que podia manter segredos dele estava muito enganado.