Select Page
Tempo de leitura 6 minutos

Um cotovelo pressionou-lhe uma costela e a Clara abriu os olhos. Encostada contra a janela da carruagem do metro, de braços cruzados, abriu um olho ensonado e lançou um olhar furtivo na direção do cotovelo irritante. Ao seu lado tinha acabado de se sentar um matulão que precisava de mais espaço do que aquele que havia disponível. Depois de dispor no chão vários sacos de plástico cheios de coisas e de verter ainda mais para fora do seu banco, os seus olhos cruzaram-se. Nos dois segundos que comunicaram sem falar, o matulão disse-lhe que se não estava satisfeita podia levantar o traseiro e ir para outro lado. Ele gostava de comer pizzas e ia continuar a comê-las. Depois de receber a mensagem, a Clara focou o lugar à sua frente. Era a única ocupante ao entrar para a carruagem cinco paragens atrás, mas podia ver agora outra pessoa sentada no lugar oposto ao seu.

Uma mulher vestindo o que parecia ser um roupão de penas em tons de neon estava descaradamente a observá-la. Os dois brincos em forma de pequenos pássaros oscilavam de um lado para o outro ao ritmo de uma música surda. A Clara piscou os olhos e ponderou passar a ir a pé os cinco quilómetros que separavam a casa do trabalho. Ou então simplesmente deixava de ir. Provavelmente seria o melhor considerando que tinha roubado uma coisa do trabalho hoje. Sentiu as bochechas a arder e desviou o olhar.

O matulão ao seu lado começou a remexer num dos sacos. Sob a camisa que levantou um pouco ao longo das costas ao inclinar-se para a frente, a Clara viu uma pele coberta de pelos ásperos e o início de um rabo. Abanando a cabeça para apagar a imagem da memória, voltou a encostar-se ao vidro gorduroso da janela. Olhou lá para fora, mas só o reflexo da mulher-pássaro apareceu como um fantasma. Não conseguia ter a certeza, mas parecia-lhe ver um ligeiro sorriso levantar-lhe um canto da boca. A Clara fechou os olhos e respirou fundo.

Do fundo do poço da memória chegou-lhe a imagem de um topázio amarelo e os seus dedos trémulos a pegarem-lhe. A pedra rodara-lhe para a palma da mão com faíscas de luz antes de a enfiar no bolso e fechar a pequena caixa de madeira de onde tinha saído. Despediu-se bruscamente dos colegas do museu queixando-se de dores de barriga e correu para o metro. Não conseguia perceber o que a tinha levado a tomar a decisão de roubar a pequena jóia, mas simplesmente não conseguiu resistir. Era como se aquela pedra preciosa perfeitamente redonda emitisse um som que continuaria a subir se a Clara não a libertasse da caixa centenária.

A carruagem travou bruscamente. A Clara ouviu as portas a abrir e a fechar e o silêncio entre as duas coisas. Do seu lado direito chegou-lhe o cheiro de uma sandes de queijo que estivera fechada durante demasiado tempo numa caixa de plástico mal lavada. Colou o nariz ao frio do vidro e voltou a abrir os olhos. A carruagem retomava lentamente a marcha e os tijolos iluminados do túnel sucederam-se até se tornarem uma linha a desaparecer na escuridão. Depois, a mulher-pássaro reapareceu no reflexo como um ser de outra dimensão. Os seus lábios moveram-se como se lhe tentasse dizer alguma coisa. Em vez de olhar para ela diretamente, sentada à sua frente, a Clara concentrou-se na imagem no vidro. Os olhos da mulher ganhavam a cor do âmbar, as linhas ondulantes dos seus lábios, como o reflexo numa água perturbada, formavam letras. A… A tua… A tua saída…

A minha saída? De dentro do meu sonho tentei acordar-me. O balouçar da carruagem deve ter-me embalado. Pisquei os olhos com uma pausa prolongada e voltei a olha para o vidro escurecido como um lago numa noite sem lua. O cheiro da sandes voltou a atacar-me e olhei para a mulher-pássaro à minha frente. Tinha igualmente adormecido. A sua cabeça tombara para o lado como uma peça de caça em exibição. Voltei a fechar os olhos e a enroscar-me contra a janela. Os meus pés roçaram no plástico dos sacos no chão e o matulão bufou qualquer coisa. Esta viagem nunca mais tinha fim.

Desta vez adormeci como deve de ser. Mas fui arrancada ao sono por um puxão violento da carruagem. Ainda não tinha aberto os olhos por completo e já estava a levar as mãos à frente para amparar a queda. As minhas mão assentaram no banco da frente, agora vazio. O matulão ao meu lado também tinha desaparecido. Estava sozinha na carruagem parada.

Uma luz ao fundo da carruagem piscou e apagou-se. A luz por cima da minha cabeça tremelicou. Era o que me faltava agora. Um problema técnico e sei lá quanto tempo de espera. Levantei-me e dirigi-me para uma das portas. Apoiei as mãos em concha no vidro e olhei para fora. Não conseguia distinguir nada. Com um aperto de pânico no peito segui ao longo do corredor até à porta de saída mais próxima. Tinha o maxilar bem fechado. Será que a polícia tinha mandado parar o metro? Será que tinham descoberto que eu tinha roubado o topázio e estavam agora a criar uma armadilha para me apanhar? “Deixa-te de pensamentos idiotas” Nem daqui a um ano vão dar pela falta desta pedra insignificante. Desde que fora trazida para o museu como parte da herança da Condessa de Garça e atirada para a arrecadação com outros objetos de pouco valor que ninguém lhe tinha prestado a mínima atenção. A luz por cima de mim voltou a tremer e olhei para ela só para a ver extinguir-se logo de seguida.

A apalpar o espaço escurecido à minha frente, levo a mão à alavanca da porta. Quando se abre logo de seguida sou inundada por um vento frio que me tira o equilíbrio. Não pela força, mas pela surpresa. Agarro-me a um pilar metálico para não cair para trás. Lá fora vejo o crepúsculo sobre um desfiladeiro emoldurado por altas paredes de rocha. Edifícios e torres aninham-se nas reentrâncias dos picos como ninhos de águias. O som de águas rápidas a passar por entre rochas chega-me aos ouvidos acompanhado pelo aroma de musgo molhado. Ponho-me de joelhos à porta e apercebo-me que a carruagem está parado numa ponte metálica, perto de uma parede de rocha. Numa fileira de luzes verdes espaçadas ao longo do que parece ser um caminho estreito vejo silhuetas a subir na minha direção. Talvez seja este o momento para a tirar para longe o topázio roubado e esquecer que este incidente alguma vez aconteceu.

Ao fim do caminho chega um grande boi com sacolas pesadas de cada lado dos flancos e, sobre o seu dorso, uma ave branca de faixa negra na cabeça e de peito inchado balançando a cada passada do animal. O boi de pêlo áspero, a mastigar qualquer coisa com um odor intenso, bufa pelas narinas no que me parece ser desaprovação. A ave branca olha-me só com um olho, redondo e brilhante com a cor do ouro; o outro está ausente do seu nicho escuro. Sinto um desconforto do meu lado direito e, metendo a mão no bolso, apercebo-me que o topázio, a perfeita esfera amarela, está incandescente com uma luz pulsante no seu interior. À minha frente, o burro raspa os cascos no chão e a ave abre o longo bico de onde me chega uma voz sem som:
— É a tua saída.