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O homem piscou os olhos e sentiu as pestanas rígidas do sal. A praia estendia-se num areal branco que desaparecia atrás de palmeiras curvadas. As suas longas folhas a varrer a areia, desenhando linhas irrequietas que desapareciam na brisa do mar. O homem, deitado de lado com um braço erguido ao lado da cabeça como se dormisse na sua cama, fez um movimento para se endireitar. Usou o braço revestido de areia para se alicerçar ignorando a pontada de dor nas costas e apercebeu-se de que a pele lhe ardia de modo progressivamente mais evidente. Seguindo o ardor com os olhos parou sobre dois cortes na perna esquerda onde o sal se aninhava numa fina camada de cristais. Outro corte no peito do pé e outros que sentia, mas não via. 

O mar sussurrou-lhe que estava ali e mostrou-lhe pequenas ondas que enrolavam a pouca distância dos seus pés e retrocediam como se o chamassem. Rochas negras subiam além do limiar da espuma, espreitando-o com olhos de cascas brilhantes. Ao longe, o horizonte fundia-se com o céu numa curva que ia do azul profundo ao roxo revelando o final do dia. Pequenos pontos luminosos quebravam o liso do céu como furos num manto escuro. O ar carregado de mar inundava-lhe o interior e acordava-lhe a mente.

O homem reconheceu este seu companheiro, a natureza. Mas não se reconheceu a si próprio na palma da mão que abriu à sua frente em busca de pistas. Apenas uma alga seca adormecida à volta de um dedo. Esse vazio irritou-o, sentiu-se como se tivesse perdido um bilhete de lotaria premiado. Levantou-se e observou a única peça de roupa que vestia; umas calças terminavam acima do joelho como que rasgadas pelos dentes nervosos de um tubarão especialmente adepto de tecido.

Fez um punho fechado com a mão direita para a acordar do torpor e sentiu o sal a estalar nos nós dos dedos. Depois, passou-a pelo cabelo emaranhado e estudou as possibilidades do que lhe teria acontecido. Observou o limiar da floresta que crescia atrás de si e formava uma barreira quase intransponível. Tinha ido parar ali de alguma maneira. Sozinho; trazido por alguém? Não. Tinha vindo pelo mar. Havia demasiados indícios disso. Pensou no que é que ele próprio decidiria fazer numa situação destas, mas como não se conhecia decidiu tomar ele próprio a decisão de sair do lugar e procurar uma solução para o seu problema. 

Começou a andar ao longo da areia, desenhando a curva que a levava para trás das palmeiras, até desembocar na zona mais escurecida da praia. De onde já não conseguia ver chegou-lhe o som de folhas a restolhar e madeira a estalar. Ondas quebravam nas rochas e gotas geladas choviam na sua pele levadas pelo vento. Retrocedeu os passos até ao ponto de partida e seguiu na direção oposta percorrendo a extensão de areia acompanhada pelas árvores que balançavam, falando entre si. De tronco em tronco, a areia serpenteava até desaparecer por baixo de vegetação rasteira e uma parede verde de folhas. 

À sua frente um penhasco cortava-lhe a passagem. O homem elevou os olhos até dançaram no céu acima do pico, presos numa gaivota que descrevia círculos no ar. Fechou os olhos e viu um escritório, a sua cabeça acima das divisórias que separavam os cubículos. 

Estou a ir. disse a sua mente no que deveria ser ele próprio.

Despacha-te. pressionou a voz de uma mulher que devia estar a sorrir. – Nem no dia em que vais de férias és capaz de deixar esse ecrã.

Estou a ir. repetiu, inclinado sobre a secretária, com o dedo hesitante no botão do monitor. A mulher com a voz melódica abraçou-o por trás e colocou-lhe um postal a dois centímetros dos olhos. Dois dedos esguios, um com um anel onde se enrolavam duas serpentes, seguravam a imagem de uma praia coroada por palmeiras e beijada pelo mar azul esmeralda.

Despacha-te!

O homem abriu os olhos e viu ainda a imagem do postal sobreposta na praia real. Tinha tido uma memória. Uma memória que justificava a sua presença neste lugar. Mas que não explicava o porquê de estar sozinho e claramente ter tido um acidente. Teria caído ao mar? Estaria a mulher na sua mente a andar de um lado para o outro no convés de uma embarcação, uma mão na cabeça sobre olhos aflitos? Estariam mergulhadores a desaparecer sob as ondas volumosas do mar alto à sua procura?

Tinha de retroceder novamente ao ponto de partida e aventurar-se mais na zona escurecida da praia. Quem sabe seria por ali o caminho para a civilização? Pôs os braços à volta do corpo para se proteger do vento frio que fazia levantar o mar em ondas encrespadas e continuou a descrever a curva da zona agreste. Uma neblina húmida deslizava da floresta em direção ao mar escondendo-lhe o que ficava além. Acima do nevoeiro pareceu-lhe ver o mastro de um navio. Do lugar de onde se devia ter erguido uma bandeira imponente ao sol, pendiam as farripas negras de uma bandeira rasgada. 

O Homem Sem Nome começou a correr na direção do que devia ser um navio de grandes dimensões. A bem ou a mal, era a única bóia de salvação que vira até ao momento e começava a ficar com fome. Era improvável encontrá-la, mas não conseguia evitar imaginar uma mesa curvada sob o peso de iguarias, alguém a tocar jazz fora da vista, e uma piscina aquecida no convés ao luar. Algo lhe dizia que este homem que lhe controlava os movimentos era um homem que apreciava as coisas boas da vida. Sentia a apreensão a crescer quanto mais tempo ficava longe da humanidade. 

Um veleiro recortou-se contra o fundo de uma tempestade que devia estar a minutos de distância. O navio de madeira que parecia em grande parte enegrecida e podre, flutuava calma e silenciosamente além da rebentação das ondas. No entanto, a corda, de onde devia pender a âncora, caía sozinha e desfiada a meio caminho da água como um animal morto. Algas e lodo cobriam a forma humana esculpida na proa como uma larva que não tinha chegado a sair do casulo. As velas, numa mistura de todas as cores, não reagiam ao vento que soprava e permaneciam desmaiadas, sem vida.

O Homem Sem Nome, de mãos nas ancas, a observar aquela aparição, sentiu um frio no estômago. Isto não lhe parecia a solução, mas sim a razão do problema. A intuição, que achava dever ter sido bem desenvolvida na vida de que não tinha memória, dizia-lhe para fugir e esconder-se onde não o encontrassem.

A lua, que se impunha sobre o céu cada vez mais carregado ao longe, iluminou uma pequena embarcação aos pés do navio. Dirigia-se para a costa.

O Homem Sem Nome olhou apressadamente em volta à procura de um esconderijo e, já sem tempo, agachou-se atrás de uma rocha baixa. Instantes depois ouviu vozes masculinas a sobreporem-se ao som do mar. Com um olho furtivo sobre um aglomerado de mexilhões, o homem observou as duas figuras a saltar para a água em direção à areia. Um deles tinha um lenço na cabeça a amainar um tufo desgrenhado de cabelos de onde pendiam algas. Por entre a barba comprida apareciam alguns dentes solitários na boca aberta em gargalhada. O outro, mais baixo e roliço, trazia uma mala pendurada ao ombro. Do interior escorregavam peixes que ficavam a saltar na areia. Numa das mãos, empunhava uma espada negra.

— Capitão! — gritou um deles.

O Homem Sem Nome, espalmado atrás da rocha, sentia no ouvido encostado à areia fria as vibrações dos passos que se aproximavam.

— Capitão Arpão! — voltou a gritar o homem roliço. Desta vez os seus olhos como poças sem fundo olhavam diretamente nos olhos do Homem Sem Nome. Abriu os braços e com um sorriso de alívio, levantou o homem da areia dando-lhe um grande abraço. O cheiro a poça de água estagnada que a maré deixou para trás com peixes moribundos penetrou-lhe as narinas.

— Quem são vocês? — perguntou o homem de pés no ar, atordoado.

O desdentado perdeu a expressão de gargalhada eminente e pôs a mão na cabeça ajeitando uma enguia que espreitava por entre farripas de cabelo sujo. Disse:

— C’um caneco, perdeu a memória, Garopa.

O homem roliço enfiou a espada à cintura e coçou o duplo queixo.

— Tanto quanto sabemos a Viperia encontrou-o algures no futuro, Polvo. Perdido em caixas cinzentas, umas com rodas, outras com janelas, a olhar para outras caixas com imagens,  adormecido por comidas sem cheiro e caras sem expressão. Sabe-se lá o que lhe aconteceu.

— Lixaram-nos o homem. Olha para ele, nem se aguenta nas pernas! — disse Polvo ao ver que o homem quase caiu ao ser de novo colocado na areia.

— Foi ele que o assim quis. O Espírito da Baía dos Naufrágios concedeu-lhe o desejo. Mesmo sabendo que perderia a memória do que tinha cá deste lado. 

— Se as sereias não pudessem passar entre dimensões no Portal do Abismo das Lulas, estávamos tramados. Ainda andaríamos à deriva, provavelmente para toda a eternidade. —  disse Polvo acariciar uma enguia.

— Tenho dúvidas que ele quisesse regressar. — cortou Garoupa com receio nos olhos. — Ela deve-lhe ter dado bem a volta, como sempre faz àqueles que leva para o fundo do mar. Ela nunca perdeu a esperança de o levar a ele também para as profundezas. E tem agora uma segunda oportunidade. — Garoupa apertou ansiosamente um dos seus peixes que saiu disparado da mão em direção à areia. O Homem Sem Nome sentiu uma nuvem de estrelas a voar em espiral para o centro de visão e perdeu os sentidos. 

Voltou a abrir os olhos quando um um banho de água gelada lhe quis rachar a cabeça ao meio. A vista a arder do sal percorreu o convés onde várias pernas em botas altas se erguiam como sentinelas. A sua mão aberta sobre a madeira que rangia parecia agora translúcida. Os vultos aguardavam em silêncio enquanto o Homem Sem Nome, o seu capitão, se perdia na catadupa de memórias que o assaltavam sem piedade. A mesma mão que observava naquele momento segurava uma espada, cortava vegetação numa ilha desabitada, afastava água à sua frente entre rochas submersas, segurava uma concha madre pérola ao sol, deixava cair moedas douradas entre os dedos, empurrava um homem de olhos rancorosos da prancha para o infinito azul.

Quando se levantou, era ele próprio outra vez. Capitão daquele outrora majestoso veleiro e daquela tripulação de homens-peixe, um homem que preferia ter vivido noutro lugar com mais confortos.

Quando a tempestade se abateu sobre o mundo, Capitão Arpão estava à proa do navio, uma mão em concha sobre a vista a seguir a linha do horizonte. O seu desejo de desertar esta caixa de fósforos húmida e mal-cheirosa tinha-lhe sido concedido. Tinha apreciado bem os prazeres do mundo moderno, até alguém o trazer de volta sem a menor consideração. Tinha sido aquela Viperia rabo-de-peixe.

— Capitão! Vamos zarpar! — disse Garoupa a aproximar-se. Pôs-lhe uma mão sapuda no ombro em sinal de satisfação e deixou escorregar outro peixe viscoso da mala que trazia ao ombro.

O Homem Sem Nome, agora Arpão, suspirou por entre os pingos da chuva. Teria de ir em busca de mais um tesouro qualquer amaldiçoado quando podia estar, em vez disso, sentado num sofá a comer um balde de gelado. 

Um brilho na água chamou-lhe a atenção. Escamas de um verde intenso passaram velozmente sob a espuma branca de uma onda. Ainda viu o longo cabelo da cor do cobre desaparecer sob um turbilhão de bolhas. Ouviu aquele cantar melódico que assusta qualquer marinheiro mortal e viu uma mão acenar-lhe das ondas que cresciam à medida que o barco se aproximava do mar alto.

— Viperina. Vais pagá-las. — sussurrou Arpão. Uma mão de dedos esguios, onde brilhava um anel de serpentes enroladas, voltou a mergulhar no azul profundo.