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Os abutres

Os abutres

Tempo de leitura 6 minutos

— Estou a morrer de sede. — disse ela a inclinar a cabeça para trás sob o sol escaldante.
— Vamos parar ali mais à frente para beber água. — disse ele a apontar para uma árvore isolada no vale. Os ramos mais altos balançaram ao sabor de uma brisa invisível como que a chamá-los para perto. Tinham saído do trilho principal há mais de duas horas e estavam cada vez mais embrenhados no meio da terra arrepanhada de montes cobertos de vegetação rasteira. Alguns abutres circulavam no céu à sua frente.
— É só esta a água que temos? — perguntou ela ao pegar na garrafa a chocalhar.
— É. Mas devemos estar quase a chegar. — respondeu ele a ouvi-la despejar o resto de água para dentro da boca. Ela limpou-se com a manga e olhou-o no olhos à espera de conseguir ler o que lhe ia na cabeça. Não era fácil. Ele tinha um ligeiro sorriso estampado nos lábios em sinal de otimismo. Ela retribuiu-lhe o sorriso só com um lado da cara.
— Vamos continuar? — perguntou ele, mais para ele próprio do que para ela.
— Tenho só de ir tratar ali de um assunto que ninguém pode tratar por mim. — disse ela a apontar para um arbusto espesso.
— Claro. Eu espero aqui.

Ele viu-a afastar-se. As botas cobertas de pó. A sua sombra pequena sob o sol vertical. Quando ela desapareceu atrás da vegetação ele meteu uma mão no bolso. Confirmou que ela não estava a olhar e retirou uma bússola que apoiou na mão aberta. Depois de forçar os olhos a focar o pequeno instrumento sob a luz branca do sol, o ponteiro do norte apontou em frente, ao longo do caminho que seguiam. Ele suspirou e olhou para o horizonte onde dançavam ondas de calor. Deviam estar a ir para sul.
Ele ouviu ramos a remexer à sua direita e apressou-se a enfiar o instrumento no bolso.
— Estou pronta.
— Vamos.
— É para continuar em frente?
— É.

— Pára.
— O que foi?
— Ouviste aquilo?
— Não. O que é que foi? — perguntou ele a rodar sobre os calcanhares em todas as direções.
— Pareceu-me ouvir qualquer coisa a vir daquele lado.
— Dali?
Olharam os dois para um aglomerado de rochas ligeiramente elevado. Ele pegou nos binóculos que trazia ao pescoço e focou a área de interesse ao longe. Enquanto ele observou as rochas, silencioso, ela observou-o a ele. Uma gota de suor isolada escorria-lhe ao longo da orelha esquerda. Conseguia perceber que as sobrancelhas estavam juntas numa linha inquisidora.
— Mas o que é que ouviste mesmo?
— Pareceu-me uma voz.
Ele deu um passo inquieto sem sair do mesmo sítio.
— Vou lá ver. — disse ele. Depois afastou os binóculos e fitou-a. Ela achava que também conseguia perceber esta expressão. Parecia mais circunspecta, com os cantos dos lábios ligeiramente virados para baixo.
— Vou contigo?
Passaram dois segundos antes de ele lhe responder.
— Não. É melhor não. Esconde-te atrás de um arbusto.

Os dois separaram-se, caminhando em direções opostas. Ela quis olhar para trás para ter a certeza de que ele estava a ir para o aglomerado de rochas, mas achou que seria uma ação imprudente. Ou será que o estranho seria não olhar, para confirmar que estava tudo bem? Os testes de empatia que faziam a androids eram uma piada.

Quando um humano chora? > Enrugar a testa e juntar as sobrancelhas.
Quando um humano ri? > Sorrir ligeiramente, mesmo que não se saiba o porquê.

Mas depois na realidade eram colocados em situações dúbias que não conseguiam ler. Exibiam um sorriso de satisfação em vez de um sorriso de pesar num funeral e, claro, tornavam-se demasiado óbvios. Mas ela acreditava que tinha um dom especial. Conseguia ler bem as nuances complicadas dos humanos. Exceto as dele. Ele era um desafio.

Quando chegou ao arbusto e se virou para o observar entre os ramos secos não o viu em lado nenhum perto das rochas. Os seus olhos lançaram-se para cima e para baixo ao longo do caminho, mas nada. O seu sistema fez um bip de alarme. Não muito longe dali os abutres rodopiavam incessantemente como se tivessem encontrado uma carcaça. Será que eles previam quando um animal ia sucumbir ao calor e simplesmente esperavam?

Começou a atravessar o caminho, primeiro a andar calmamente, depois, a correr. Não estava preocupada com o som que tinha ouvido da área das pedras porque na realidade não tinha ouvido nada. Subiu a rocha mais alta e olhou para todos os lados. Ele tinha desaparecido. E ela, claramente, tinha sido desmascarada. Qual teria sido a dica? Não lhe ter perguntado se queria o resto da água? Tivera dúvidas nessa situação. Mas hesitar tinha sido ainda pior. Mas não, já deve ter sido antes. Ele também deve ter as suas qualidades. Caso contrário não seria um alvo tão importante a abater.

Ele mexeu-se desconfortável. O arbusto seco onde se tinha enfiado tinha uns picos afiadíssimos que atravessavam a roupa. Esperou imóvel e finalmente viu-a aparecer sobre as rochas. O corpo esguio, como um gato, saltou de rocha em rocha até ao ponto mais alto. Os abutres ao longe formavam-lhe uma coroa em movimento sobre a cabeça.
Este trabalho estava a ser mais complicado do que originalmente esperara. Ele tinha quase a certeza que ela o enganara com um som que não tinha ouvido. Estava demasiado calma, pouco interessada em perceber que ameaça os esperava atrás das rochas, e mais interessada nele próprio. Provavelmente já o tinha topado. Mas claro que ela também devia ter as suas qualidades. Caso contrário não seria um alvo tão importante a abater.

Quando ouviu o som de ramos secos a estalar era tarde demais. Uma mão arrastou-o para fora do arbusto, os picos a rasgarem-lhe a pele. Os seus olhos cruzaram-se. Ela não estava satisfeita. Era a primeira vez que o demonstrava e isso deu-lhe a ele alguma satisfação. Podiam deixar cair as máscaras.
— Quem és tu? — perguntou-lhe ela entre dentes.
— Sou um guia, não é óbvio? — respondeu ele com um sorriso aberto.
Ela inclinou a cabeça, intrigada. Estavam agora os dois sentados no chão seco. As cigarras cantavam alto. Ela tinha afrouxado a mão que lhe agarrava a perna.
— Não percebes sarcasmo?
— Claro que percebo.
— O que é que eu estou a sentir agora?
Ela inclinou agora a cabeça para o outro lado.
— Medo?
Ele riu-se com vontade.
— Não. Estou mais divertido do que outra coisa.
— Não me vês como uma ameaça, é isso? – perguntou ela. Alguma coisa doía-lhe lá dentro no peito.
— Claro que vejo. Mas pelo menos agora podemos falar abertamente, o que torna a coisa mais interessante.
Ele sacudiu o pó da roupa e fez um trejeito com a boca ao passar por cima de cortes nos braços. Estendeu-lhe a mão.
— Sou o Dia. E não sou guia. — rematou a rima com mais uma exposição de dentes brancos. — Sou um assassino profissional ao serviço da coroa deste planeta.
Ela levantou um canto da boca, incerta se estava com vontade de ter contacto com a pele de outro ser. Finalmente acedeu dar-lhe a mão.
— Sou a Noite. E não sou diplomata a ir para a Conferência de Estados. Sou um adroid programado para te matar.
Ele apertou-lhe a mão com força e puxou-a para si. Os dois rebolaram pela terra. Ele puxou de um punhal escondido debaixo do braço; ela ativou a descarga elétrica para os dedos e colocou-lhe a mão à volta do pescoço.

Quando a noite desceu e as duas luas subiram no céu por entre as estrelas, o frio instalou-se. Os abutres estavam recolhidos nos seus ninhos, adormecidos; os seus bicos aconchegados por entre as penas insufladas. Antecipavam com satisfação o pequeno almoço reforçado que iam ter aos primeiros raios de sol.

O zepelim

O zepelim

Tempo de leitura 4 minutos

O chão gretado debaixo dos meus pés lançava para o ar nuvens de pó que se uniam num nevoeiro vermelho à medida que as minhas passadas o perturbavam. Impedia-me de ver com clareza a escada de corda que balançava do céu à minha frente. Mais um esforço para a conseguir alcançar. Só mais um esforço. Eu devia ter algures no meu corpo uma bomba de energia armazenada, mas temia perder o impulso necessário para continuar se abrandasse para a procurar. Os braços impulsionavam-me, um de cada vez, de cada lado, imparáveis. As pernas impelidas pelas descargas dos músculos demoravam cada vez mais a responder às ordens do meu sistema nervoso. Do mesmo modo, a corda se afastava-se cada vez mais ao contrário de se aproximar.

O objeto voador de onde pendia a escada subiu, e ela com ele, desaparecendo entre as nuvens como se tivesse sido puxada por um pescador desapontado com a falta de peixe a morder o isco. Eu congelei a meio da corrida e lancei as mãos ao cabelo desgrenhado. Não! A respiração ofegante curvou-me o corpo num espasmo e amparei-me com as mãos nos joelhos; gotas de suor encheram-me os olhos como lágrimas. Sentei-me no chão poeirento e nu e olhei por entre as farripas de cabelo ao longo do horizonte. Não havia sinais do zepelim nem da escada. Acima do teto de nuvens pesadas que se estendia até onde o olhar se perdia, estava a ilha de rocha suspensa, o Rochedo. Eu não o via, mas sabia que estava lá. Aliás, tinha quase a certeza que estava lá. Afinal de contas, nunca ninguém o tinha visto e tinha voltado para contar a história.

Eu estava acampado há vários dias num ermo do deserto do Nada, ansiosamente à espera de ver um zepelim passar. Eram mais raros do que unicórnios, dizia-se. No entanto, um antigo mito que se tinha propagado durante anos nas zonas frias além do deserto confirmava a sua existência. Segundo a crença, um destes objetos voadores cobertos de escamas de um verde tão brilhante que ofuscava, furava a camada de nuvens uma vez por ano e cruzava os céus vindo do Rochedo até ao pico da montanha do Nunca, situada a vários quilómetros de distância. Mantinha-se sempre acima das nuvens, invisível aos olhos dos habitantes do deserto que tinham deixado de olhar para o céu há muitas gerações, e apenas baixava de altitude, por razões desconhecidas, perto do desfiladeiro do rio Sem Fim, onde abrandava. Era como se o piloto desejasse mostrar aos seus passageiros o cenário deslumbrante do rio veloz a cortar por entre a terra estéril. Quem tivesse coragem, podia agarrar-se à sua escada de corda e subir além do teto negro de nuvens, em direção ao Rochedo.

Decidi ir em busca dessa visão rara e, quem sabe até desvendar o mistério, tendo recebido no dia da minha partida olhares de pena e desagrado das expressões negras dos homens e mulheres que só olham para o chão. Após noites a dormir ao relento gelado, rodeado de arbustos secos e lagartixas, fui acordado de um sonho onde passeava à luz do sol entre edifícios de cristal suspensos acima de um manto branco. Ao despertar, apercebi-me que um zumbido dormente preenchia os espaços e deixava inquietos os escorpiões sob as rochas. Fui encadeado pela força da luz esverdeada que emanava de algo abaixo das nuvens densas. Era ele. Era o zepelim. Deslizava sem pressa como uma baleia de barriga cheia ao longo do rio Sem Fim. As suas escamas brilhantes, como jóias, sobrepunham-se num encadeamento perfeito acima de uma fileira de pequenas janelas. Da sua grande pança pendia a escada de corda suspensa como uma minhoca a contorcer-se à espera de um animal esfomeado.

Foi aqui que comecei a correr. Se tivesse parado para pensar, tinha tomado logo uma bomba de energia para aguentar a corrida. Mas não pensei. O zepelim estava agora a aproximar-se das margens dos desfiladeiro. E era agora ou nunca.

Agora, depois da oportunidade perdida, sentado na poeira vermelha, passei uma mão coberta de pó pela cara, fechei os olhos a arder e suspirei. Agora, era o nunca.

Quando voltei a abrir os olhos, o dia tinha escurecido. A escada de corda estava suspensa à minha frente. Com medo de a assustar como a um animal silvestre, levantei-me em câmara lenta e pendi a cabeça para trás para observar com espanto o grande objeto voador estranhamente inerte sobre mim. Com uma mão pouco segura, aproximei-me da corda e agarrei-a; a sua superfície irregular a picar-me a palma da mão. Com as duas mãos seguras, a escada em desiquilíbrio desenhou um círculo acima da terra. Ganhei equilíbrio aos poucos até me separar do chão vermelho em direção a um alçapão aberto e escurecido a metros de distância. O zepelim foi ganhando altitude e quando cheguei ao fim da escada as nuvens que atravessávamos entraram comigo para dentro do espaço como o nevoeiro antes da revelação num espetáculo de magia. Lá em baixo, o rio Sem Fim serpenteava como uma cobra a fugir de um falcão.

No interior do zepelim um corredor levava a um grande salão branco. Lá, sentados ao redor de mesas repletas de iguarias, estavam homens e mulheres, exatamente iguais aos que eu tinha deixado no deserto. Mas estes, contrariamente aos outros, observavam-me com olhos luminescentes. Um homem, como o meu reflexo no espelho, orientou-me com os seus olhos brilhantes na direção da janela de vidro. Lá fora o sol intenso iluminava o manto das nuvens como um mar nunca antes navegado e, ao longe, uma ilha no céu, como um rochedo.

A tempestade – parte II

A tempestade – parte II

Tempo de leitura 5 minutos

Com uma energia alimentada pela adrenalina, tentei afastar a primeira caixa da pilha sobre os degraus. Era pesadíssima. Arrastei-a com esforço até cair no chão de madeira. Sons de vidro a estilhaçar soaram abafados no seu interior. A segunda caixa era ainda mais pesada e só a consegui mover alguns centímetros. Sem pensar duas vezes, rasguei a tampa e espalhei à minha volta os livros empilhados no interior. Fui removendo caixa a caixa como as camadas de uma cebola, com os olhos marejados de lágrimas pelo esforço súbito que tinha feito. Passei por cima da última caixa e subi o resto da escada com as mãos nos degraus. Ao cimo das escadas olhei para a direita e a esquerda ao longo de um corredor. Portas fechadas decoravam as paredes de ambos os lados.
— Estou cá em cima. — disse eu na expectativa que novas pancadas me indicassem o caminho.
Silêncio.

Lá fora a chuva martelava impiedosamente contra o telhado e ramos rangiam dobrados pelo vento.
Comecei pela esquerda a abrir portas. Um quarto vazio. Um quarto com uma cama sem colchão. Segui ao longo do corredor e passei as escadas. Abri mais uma porta para um quarto com a janela partida. O ramo de uma árvore atravessava o vidro até tocar no chão e água escorria ao longo da madeira para dentro do quarto. Será que tinha sido este ramo que eu ouvira a bater no chão? Será que estava a imaginar coisas? Quando estava prestes a fechar a porta apercebi-me de uma forma aninhada num canto escuro. Era um baú. Entrei no quarto e observei-o de perto. Não estava coberto de pó como o resto da casa e a tampa levantou sem fazer ruído. No seu interior estava uma caixa mais pequena. E no interior desta, uma coleção de relógios e jóias de mulher perfeitamente alinhadas. O pendente de um colar tinha o nome “Raquel”, outro, o nome “Joana”. Fechei a tampa com um sobressalto. Não estava a gostar nada disto.

Quando me levantei para sair do quarto, o ramo que atravessava a janela foi puxado para trás com uma guinada de vento que fez tombar a árvore na direção oposta. Vidros rachados partiram-se e precipitaram-se para o chão, deixando a janela escancarada como uma ferida aberta. Olhei pela abertura, afastando gotas dos olhos, e vi uma escada exterior presa à parede que desembocava na janela do quarto. Um carro enferrujado com ervas altas a sair pelas janelas estava esquecido nas traseiras da casa. Ao seu lado, uma fogueira apagada espalhava cinza negra ao longo de fios de água que deslizavam em todas as direções. Do céu irrompeu um trovão seguido de um raio, iluminando a área como o flash de uma fotografia na cena do crime. Por entre a cinza molhada brilhou um osso branco. E depois, outro.

Saí da casa a correr tropeçando nos livros espalhados no corredor do piso térreo. Quando levantei do chão a bicicleta molhada, a chuva pesada transformou-se numa nuvem de gotas leves e reluzentes. A luz do dia, finalmente a cortar por entre as nuvens que se dissipavam, mostrava-me o trilho além do ramo tombado. Sem olhar para trás pedalei furiosamente entre os arbustos encharcados, o aroma da terra molhada a impor-se na minha respiração acelerada. Ainda não tinha formulado as frases no meu pensamento. Só agora me atrevia a deixar as palavras agruparem-se num alinhamento com nexo. Descobrira, por um acaso do destino, o local onde as mulheres desaparecidas tinham perdido a vida. Sentia um misto de emoções. Por um lado, o terror dos seus últimos momentos insistia em formar imagens na minha mente, por outro lado, a expressão de alívio do Jorge dava-me alento para continuar.

Quando cheguei ao tribunal, deixei a bicicleta tombar sobre os degraus de entrada e entrei para o hall de mármore frio, seguido pelos gritos irritados do segurança. A andar para a esquerda e para a direita como uma barata tonta, o assistente do advogado de defesa do Jorge correu na minha direção.
— Carlos, mas que raio! Pensávamos que já não vinha. Estou farto de lhe ligar para…
— Ouça-me com atenção. — disse eu a agarrar-lhe nos braços com as duas mãos. Tentei estabelecer uma ligação com o olhar, mas o assistente olhava interessado para o meu cabelo desalinhado. — Eu descobri o esconderijo do verdadeiro assassino.
O assistente endireitou-se no fato demasiado largo e formou uma ponte com as duas sobrancelhas.
— Do que é que está a falar?
— Não perca tempo. Chame aqui um polícia, tenho de lhe dar a morada. Tenho a prova de que precisávamos!
O assistente rendeu-se ao meu sorriso e copiou-o. Depois, ainda com uma expressão baralhada, deu meia volta e dirigiu-se para uma sala de grandes portas de madeira polida. A meio caminho parou e virou-se de novo para mim.
— Antes que me esqueça. O Jorge tinha-me pedido para lhe passar este bilhete quando chegasse.
Agradeci com um aceno rápido e peguei no papel dobrado, vendo o assistente desaparecer atrás das portas. Abri o papel:

Carlos, obrigado por tudo. És um verdadeiro amigo.
Jorge

Quando levantei os olhos procurei um lugar para me sentar. Arrastei-me até um banco corrido de mármore e deixei-me cair. Por momentos segurei a cabeça entre as duas mãos, como se houvesse o perigo de se desprender do resto do corpo. Depois, meti uma mão gelada no bolso do casaco.

Quando o assistente regressou, acompanhado de um polícia e outras duas pessoas com ares gananciosos, eu ainda estava sentado de olhar perdido nos sapatos de salto alto que passavam à minha frente.
— Carlos Alves? — perguntou o polícia a engrossar a voz. Eu acenei lentamente a cabeça. Ainda a sentia estranhamente pesada. — A equipa de defesa do sr. Jorge Silvano diz-me que quer participar um acontecimento. Faz parte das testemunhas de defesa, correto? — perguntou novamente ele a sentar-se ao meu lado. Eu olhei-o nos olhos muito abertos.
— Não. Faço parte das testemunhas de acusação.

Queixos caíram à minha volta. O assistente do advogado de defesa ajoelhou-se à minha frente e pegou nos dois papeis abertos sobre os meus joelhos. Um, o bilhete passado pelo Jorge ainda há pouco. O outro, a nota que tinha estado presa na porta da casa abandonada. Em ambas, corria, ligeiramente inclinada para a direita, a mesma caligrafia.

A tempestade – parte II

A tempestade – parte I

Tempo de leitura 7 minutos

Afrouxei a intensidade dos pés nos pedais da bicicleta e observei o céu que se tinha intensificado com uma cor de petróleo. Gotas como alfinetes caíam espaçadas no meu impermeável, escorrendo ao longo dos braços esticados. Era o prenúncio da tempestade que aí vinha. Suspirei e semi-cerrei os olhos apoiados em duas olheiras fundas. Ainda sentia o calor dos lençóis como se nunca tivesse chegado a sair da cama, mas o ar gelado da manhã teimava em despertar-me da noite mal dormida. As gotas tornaram-se pesadas e rebentavam-me na cabeça despida como balões cheios de água. O capacete tinha dado jeito. Puxei uma manga molhada para cima e revelei um relógio de pulso. Um gato preto mostrava-me as horas e os minutos com os seus braços. Os seus olhos amendoados pareciam fazer pouco de mim. Faltava uma hora.

Olhei ao longo do caminho de terra que cortava entre as árvores e procurei um abrigo. Este corta-mato dava-me alguma vantagem em termos de tempo, mas oferecia pouca proteção contra a chuva. Ia chegar ao tribunal como um pinto encharcado. Depois reparei num trilho estreito do meu lado esquerdo, que nunca me lembrava de ter visto ali antes. Parecia que acabava um pouco mais à frente numa clareira. Talvez houvesse uma casa. Levantei uma perna e saí da bicicleta ainda em andamento, empurrando-a apressadamente pelo trilho. Efetivamente, uma casa revelou-se além das árvores, aninhada no limiar do bosque. Os meus olhos embaciados prenderam-se no alpendre seco e escancarei-os perante a solução para o meu problema. Trovões irromperam do céu como uma manada de bois no meu encalço.

Enquanto corria para o meu refúgio, observei a casa de madeira. Parecia abandonada, com vidros partidos no piso térreo e ervas altas a crescer no telhado. Na porta da rua fechada esvoaçava um bilhete pregado. Deixei a bicicleta tombada contra os degraus e subi-os com um salto na direção do alpendre. Passei as mãos pela cara e aconcheguei-me contra a parede. Cheirava a madeira molhada.

A chuva caía agora em cascata embalada pelo vento, formando poças de lama na terra. Com uma mão senti o relógio tapado pela manga. Quanto tempo é que ia durar este dilúvio? Pensei no Jorge e senti uma pontada fria no peito. Não o podia deixar mal quando mais precisava de mim. Abanei a cabeça, incrédulo com a situação. Eu ainda o via como o rapaz que brincava comigo nas traseiras do prédio, a entrar no carro abandonado que servia de sede às nossas missões secretas. Empunhávamos armas a fingir, talhadas de ramos velhos, e apanhávamos criminosos fugidos da justiça no meio de gargalhadas.

Um relâmpago estalou no céu, seguido de um estrondo no interior da casa.Virei-me para o edifício que me protegia e fiquei alerta. Será que a chaminé tinha sido atingida por um raio? Sintonizando os ouvidos para além do som da chuva observei a nota pregada na porta. Estava quase a soltar-se com o vento. Com uma mão apanhei-a antes de se impulsionar na direção da chuva. Olhei para o papel húmido e sujo:

Não entrar. Casa em perigo de ruína.

Dei um passo atrás, incerto se devia permanecer ali. As tábuas do chão pareciam estáveis o suficiente. Olhei novamente para o papel com uma crescente sensação de ansiedade e enfiei-o no bolso. Considerei se teria sido melhor continuar pelo caminho enlameado até sair do bosque. Por esta altura já tinha chegado ao tribunal. O mais importante era o que tinha a dizer como testemunha de defesa, e não o estado das minhas roupas. Além do mais, teria tempo suficiente para secá-las um pouco na casa de banho.

Dirigia-me para a bicicleta quando um estalido, agora mais suave, se fez novamente ouvir do interior da casa. A minha respiração acelerou e senti o coração a martelar nas veias do pescoço. Esta tempestade, em comunhão com a noite repleta de sonhos cansativos, estavam a brincar com a minha imaginação. Decidi que ia só espreitar pela janela ao fim do alpendre. Era só isso. Olhava lá para dentro, não via nada e ia-me embora.

O vento mudou de direção lançando a chuva na diagonal para dentro do alpendre. Quando me aproximei da janela as gotas escorriam no vidro, limpando a poeira que se acumulava no parapeito. Quando o meu olhar passou para além do vidro, o sangue gelou-me nas veias. Na grande sala, a imponente lareira na parede da direita estava acesa. O brilho das chamas dançavam pelo espaço escurecido, a lenha crepitava libertando um ocasional estalido mais forte. Saí da frente da janela e encostei-me rapidamente à lateral da casa. Eu pensava que a casa estava vazia, mas claramente estava lá alguém. Não me apercebera de ninguém na sala. Provavelmente estaria num dos quartos do piso superior.

A água fria escorria-me da cara e martelava-me no impermeável como se me pressionasse a entrar na casa. Virei-me para a porta e considerei essa opção. A tempestade tinha invadido o alpendre e estava mais forte do que antes, pautada por violentas rajadas de vento. Fazendo a custo um punho fechado com a mão enregelada, bati três vezes na porta de madeira. Voltei a bater três vezes com mais força para subir acima do barulho da chuva e do vento nas copas das árvores. Não houve reação do interior da casa. Bati uma vez mais, com mais força, agora com a lateral do punho. A porta abriu-se sob a pressão e vi-a deslizar lentamente até ficar entreaberta. A porta tinha estado mal fechada o tempo todo.

Afastei-a um pouco mais e fui inundado pelo cheiro a mofo e fumo.
— Está aí alguém? — O ruído abafou a minha voz tremida. Tentava desesperadamente sintonizar os ouvidos para o interior da casa, mas o coração a bater-me nos ouvidos dificultava a tarefa. — Procuro refúgio da tempestade. Está aí alguém?

Reconheci, para a direita e antes da entrada para a sala, a balaustrada de uma escada. Dei os meus primeiros passos no interior deixando a porta a vacilar ao vento. As escadas estavam intransponíveis. Caixas de cartão de grandes dimensões amontoavam-se nos degraus não deixando ver o que ficava para lá das suas formas na penumbra. Se alguém estava nesta casa, só poderia estar noutras divisões do piso térreo que não a sala. Reparei num corredor à esquerda da porta de entrada. Ao passar por ela chegou-me o som de madeira a rachar. Lá fora, do outro lado da clareira fustigada pela chuva, um pesado ramo tombava de uma das árvores que a ladeavam. Com um gemido doloroso deixou o tronco central e precipitou-se sobre o trilho que levava à casa. Eu fiquei estupefacto. Estava a tornar-se cada vez mais difícil chegar a horas ao tribunal. O julgamento ainda ia durar umas semanas. Só me restava esperar conseguir ser ouvido noutro dia.

O corredor que levava à cozinha estava completamente às escuras. Tateei ao longo da superfície húmida das paredes laterais até chegar a um espaço com grandes janelas de vidro que davam para as traseiras do edifício. A luz mortiça que escorria pelas várias secções de vidro sujo permitia-me ver suficientemente bem o interior. Havia pratos por lavar empilhados na pia; garrafas vazias sobre a pequena mesa de plástico ao centro emolduravam uma corda enrolada como uma cobra adormecida. Alguém estava a usar esta casa, mas quem quer que fosse, não estava aqui no momento. Não haviam marcas de pneus lá fora, nem a possibilidade de se chegar aqui com um carro, por isso a pessoa mistério só voltaria quando terminasse a tempestade. Mais valia não desperdiçar o calor do fogo por isso dirigi-me para a sala.

Havia dois grandes cadeirões de pele mal-tratada dispostos em frente à lareira. Sentei-me cautelosamente naquele que não estava coberto de pó. Depois, respirei fundo e relaxei os músculos do pescoço, deixando a cabeça inclinar-se para trás contra o apoio. Senti-me inebriado pela onda de calor que me aquecia a cara e as mãos e evaporava a água da minha roupa. O pequeno fio de fumo que saía em espiral da lareira enevoava-me a vista e dei por mim a semi-cerrar os olhos aguados.

A imagem de um Jorge mais novo a sorrir dançou entre as chamas transformando-se no adulto de hoje, sentado no banco dos réus. Os seus olhos familiares olhavam-me, descaídos. Eu sentia o peso da sua dor. Ver-se envolvido num caso de múltiplos desaparecimentos e acusado da possível morte dessas pessoas tinha sido a gota de água na sua personalidade sensível. As provas circunstanciais de que tinha sido visto à porta de casa de duas das mulheres que nunca mais tinham sido vistas eram poderosas perante o meu testemunho do seu bom caráter. Mas essa era a verdade, além do que podiam dizer os vídeos captados por modernas câmaras de segurança. Eu conhecia-o, como mais ninguém. Ele tinha sido o ombro onde eu encostara a cabeça em tempos de dificuldade. Era agora o meu dever ajudá-lo.

Os olhos compreensíveis do Jorge rodopiaram nas labaredas e esfumaram-se. A minha respiração acalmou e quando estava prestes a desligar os sentidos o som de algo a partir no piso superior arrancou-me do doce lazer. Sentei-me como um espeto a olhar para o teto da sala. Decidi que estava na hora de sair dali. Rapidamente.

Ao passar apressado em frente à escada atafulhada, ouvi novamente um ruído forte vindo do piso de cima. Parei em frente à escada. Sentia-me a começar a ficar irritado. A noite mal dormida, a tempestade, os nervos de estar atrasado para uma responsabilidade importante estavam a pôr fim ao meu bom senso. Outra vez, uma pancada forte, como se alguém estivesse a bater com um pau no chão. E outra vez, agora mais fraco.
— Eu já perguntei se está aí alguém! — gritei eu com uma voz esganiçada. Duas pancadas de seguida. Contra toda a cautela que me tinha sido passada pela minha mãe disse:
— Vou aí acima. — Mais duas pancadas. Alguém me estava a responder.