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CONTOS

Viperia

Viperia

O homem piscou os olhos e sentiu as pestanas rígidas do sal. A praia estendia-se num areal branco que desaparecia atrás de palmeiras curvadas. As suas longas folhas a varrer a areia, desenhando linhas irrequietas que desapareciam na brisa do mar. O homem, deitado de...

O olho

O olho

Um cotovelo pressionou-lhe uma costela e a Clara abriu os olhos. Encostada contra a janela da carruagem do metro, de braços cruzados, abriu um olho ensonado e lançou um olhar furtivo na direção do cotovelo irritante. Ao seu lado tinha acabado de se sentar um matulão...

Além do muro – parte II

Além do muro – parte II

As sombras esticavam-se nos campos, prontas para adormecer entre as ervas altas. As cigarras calavam-se quando ele passava e os pássaros ajeitavam-se nas copas das árvores. O João correu pelo lusco-fusco a dentro, com medo de ser apanhado pelos raios fantasmagóricos...

Além do muro – parte I

Além do muro – parte I

O João mastigava uma bolacha e dava pontapés nas pedras soltas enquanto caminhava ao longo do muro. Este não era o caminho que o trazia da escola, mas o que o trazia de um dia de deambulações pelo campo. Insetos esvoaçavam na sombra fresca e brilhavam como partículas...

A inspiração

A inspiração

O telhado de zinco, inclinado sobre a entrada da casa, deixava cair uma torrente de água atrás do homem de gabardina especado à porta, como um véu que só se transpõe num único sentido. Voltar para trás, para a chuva insistente, era impossível. Sentia o nariz gelado e...

Os abutres

Os abutres

— Estou a morrer de sede. — disse ela a inclinar a cabeça para trás sob o sol escaldante. — Vamos parar ali mais à frente para beber água. — disse ele a apontar para uma árvore isolada no vale. Os ramos mais altos balançaram ao sabor de uma brisa invisível como que a...

O zepelim

O zepelim

O chão gretado debaixo dos meus pés lançava para o ar nuvens de pó que se uniam num nevoeiro vermelho à medida que as minhas passadas o perturbavam. Impedia-me de ver com clareza a escada de corda que balançava do céu à minha frente. Mais um esforço para a conseguir...

A tempestade – parte II

A tempestade – parte II

Com uma energia alimentada pela adrenalina, tentei afastar a primeira caixa da pilha sobre os degraus. Era pesadíssima. Arrastei-a com esforço até cair no chão de madeira. Sons de vidro a estilhaçar soaram abafados no seu interior. A segunda caixa era ainda mais...

A tempestade – parte I

A tempestade – parte I

Afrouxei a intensidade dos pés nos pedais da bicicleta e observei o céu que se tinha intensificado com uma cor de petróleo. Gotas como alfinetes caíam espaçadas no meu impermeável, escorrendo ao longo dos braços esticados. Era o prenúncio da tempestade que aí vinha....