Select Page
Viperia

Viperia

Tempo de leitura 9 minutos

O homem piscou os olhos e sentiu as pestanas rígidas do sal. A praia estendia-se num areal branco que desaparecia atrás de palmeiras curvadas. As suas longas folhas a varrer a areia, desenhando linhas irrequietas que desapareciam na brisa do mar. O homem, deitado de lado com um braço erguido ao lado da cabeça como se dormisse na sua cama, fez um movimento para se endireitar. Usou o braço revestido de areia para se alicerçar ignorando a pontada de dor nas costas e apercebeu-se de que a pele lhe ardia de modo progressivamente mais evidente. Seguindo o ardor com os olhos parou sobre dois cortes na perna esquerda onde o sal se aninhava numa fina camada de cristais. Outro corte no peito do pé e outros que sentia, mas não via. 

O mar sussurrou-lhe que estava ali e mostrou-lhe pequenas ondas que enrolavam a pouca distância dos seus pés e retrocediam como se o chamassem. Rochas negras subiam além do limiar da espuma, espreitando-o com olhos de cascas brilhantes. Ao longe, o horizonte fundia-se com o céu numa curva que ia do azul profundo ao roxo revelando o final do dia. Pequenos pontos luminosos quebravam o liso do céu como furos num manto escuro. O ar carregado de mar inundava-lhe o interior e acordava-lhe a mente.

O homem reconheceu este seu companheiro, a natureza. Mas não se reconheceu a si próprio na palma da mão que abriu à sua frente em busca de pistas. Apenas uma alga seca adormecida à volta de um dedo. Esse vazio irritou-o, sentiu-se como se tivesse perdido um bilhete de lotaria premiado. Levantou-se e observou a única peça de roupa que vestia; umas calças terminavam acima do joelho como que rasgadas pelos dentes nervosos de um tubarão especialmente adepto de tecido.

Fez um punho fechado com a mão direita para a acordar do torpor e sentiu o sal a estalar nos nós dos dedos. Depois, passou-a pelo cabelo emaranhado e estudou as possibilidades do que lhe teria acontecido. Observou o limiar da floresta que crescia atrás de si e formava uma barreira quase intransponível. Tinha ido parar ali de alguma maneira. Sozinho; trazido por alguém? Não. Tinha vindo pelo mar. Havia demasiados indícios disso. Pensou no que é que ele próprio decidiria fazer numa situação destas, mas como não se conhecia decidiu tomar ele próprio a decisão de sair do lugar e procurar uma solução para o seu problema. 

Começou a andar ao longo da areia, desenhando a curva que a levava para trás das palmeiras, até desembocar na zona mais escurecida da praia. De onde já não conseguia ver chegou-lhe o som de folhas a restolhar e madeira a estalar. Ondas quebravam nas rochas e gotas geladas choviam na sua pele levadas pelo vento. Retrocedeu os passos até ao ponto de partida e seguiu na direção oposta percorrendo a extensão de areia acompanhada pelas árvores que balançavam, falando entre si. De tronco em tronco, a areia serpenteava até desaparecer por baixo de vegetação rasteira e uma parede verde de folhas. 

À sua frente um penhasco cortava-lhe a passagem. O homem elevou os olhos até dançaram no céu acima do pico, presos numa gaivota que descrevia círculos no ar. Fechou os olhos e viu um escritório, a sua cabeça acima das divisórias que separavam os cubículos. 

Estou a ir. disse a sua mente no que deveria ser ele próprio.

Despacha-te. pressionou a voz de uma mulher que devia estar a sorrir. – Nem no dia em que vais de férias és capaz de deixar esse ecrã.

Estou a ir. repetiu, inclinado sobre a secretária, com o dedo hesitante no botão do monitor. A mulher com a voz melódica abraçou-o por trás e colocou-lhe um postal a dois centímetros dos olhos. Dois dedos esguios, um com um anel onde se enrolavam duas serpentes, seguravam a imagem de uma praia coroada por palmeiras e beijada pelo mar azul esmeralda.

Despacha-te!

O homem abriu os olhos e viu ainda a imagem do postal sobreposta na praia real. Tinha tido uma memória. Uma memória que justificava a sua presença neste lugar. Mas que não explicava o porquê de estar sozinho e claramente ter tido um acidente. Teria caído ao mar? Estaria a mulher na sua mente a andar de um lado para o outro no convés de uma embarcação, uma mão na cabeça sobre olhos aflitos? Estariam mergulhadores a desaparecer sob as ondas volumosas do mar alto à sua procura?

Tinha de retroceder novamente ao ponto de partida e aventurar-se mais na zona escurecida da praia. Quem sabe seria por ali o caminho para a civilização? Pôs os braços à volta do corpo para se proteger do vento frio que fazia levantar o mar em ondas encrespadas e continuou a descrever a curva da zona agreste. Uma neblina húmida deslizava da floresta em direção ao mar escondendo-lhe o que ficava além. Acima do nevoeiro pareceu-lhe ver o mastro de um navio. Do lugar de onde se devia ter erguido uma bandeira imponente ao sol, pendiam as farripas negras de uma bandeira rasgada. 

O Homem Sem Nome começou a correr na direção do que devia ser um navio de grandes dimensões. A bem ou a mal, era a única bóia de salvação que vira até ao momento e começava a ficar com fome. Era improvável encontrá-la, mas não conseguia evitar imaginar uma mesa curvada sob o peso de iguarias, alguém a tocar jazz fora da vista, e uma piscina aquecida no convés ao luar. Algo lhe dizia que este homem que lhe controlava os movimentos era um homem que apreciava as coisas boas da vida. Sentia a apreensão a crescer quanto mais tempo ficava longe da humanidade. 

Um veleiro recortou-se contra o fundo de uma tempestade que devia estar a minutos de distância. O navio de madeira que parecia em grande parte enegrecida e podre, flutuava calma e silenciosamente além da rebentação das ondas. No entanto, a corda, de onde devia pender a âncora, caía sozinha e desfiada a meio caminho da água como um animal morto. Algas e lodo cobriam a forma humana esculpida na proa como uma larva que não tinha chegado a sair do casulo. As velas, numa mistura de todas as cores, não reagiam ao vento que soprava e permaneciam desmaiadas, sem vida.

O Homem Sem Nome, de mãos nas ancas, a observar aquela aparição, sentiu um frio no estômago. Isto não lhe parecia a solução, mas sim a razão do problema. A intuição, que achava dever ter sido bem desenvolvida na vida de que não tinha memória, dizia-lhe para fugir e esconder-se onde não o encontrassem.

A lua, que se impunha sobre o céu cada vez mais carregado ao longe, iluminou uma pequena embarcação aos pés do navio. Dirigia-se para a costa.

O Homem Sem Nome olhou apressadamente em volta à procura de um esconderijo e, já sem tempo, agachou-se atrás de uma rocha baixa. Instantes depois ouviu vozes masculinas a sobreporem-se ao som do mar. Com um olho furtivo sobre um aglomerado de mexilhões, o homem observou as duas figuras a saltar para a água em direção à areia. Um deles tinha um lenço na cabeça a amainar um tufo desgrenhado de cabelos de onde pendiam algas. Por entre a barba comprida apareciam alguns dentes solitários na boca aberta em gargalhada. O outro, mais baixo e roliço, trazia uma mala pendurada ao ombro. Do interior escorregavam peixes que ficavam a saltar na areia. Numa das mãos, empunhava uma espada negra.

— Capitão! — gritou um deles.

O Homem Sem Nome, espalmado atrás da rocha, sentia no ouvido encostado à areia fria as vibrações dos passos que se aproximavam.

— Capitão Arpão! — voltou a gritar o homem roliço. Desta vez os seus olhos como poças sem fundo olhavam diretamente nos olhos do Homem Sem Nome. Abriu os braços e com um sorriso de alívio, levantou o homem da areia dando-lhe um grande abraço. O cheiro a poça de água estagnada que a maré deixou para trás com peixes moribundos penetrou-lhe as narinas.

— Quem são vocês? — perguntou o homem de pés no ar, atordoado.

O desdentado perdeu a expressão de gargalhada eminente e pôs a mão na cabeça ajeitando uma enguia que espreitava por entre farripas de cabelo sujo. Disse:

— C’um caneco, perdeu a memória, Garopa.

O homem roliço enfiou a espada à cintura e coçou o duplo queixo.

— Tanto quanto sabemos a Viperia encontrou-o algures no futuro, Polvo. Perdido em caixas cinzentas, umas com rodas, outras com janelas, a olhar para outras caixas com imagens,  adormecido por comidas sem cheiro e caras sem expressão. Sabe-se lá o que lhe aconteceu.

— Lixaram-nos o homem. Olha para ele, nem se aguenta nas pernas! — disse Polvo ao ver que o homem quase caiu ao ser de novo colocado na areia.

— Foi ele que o assim quis. O Espírito da Baía dos Naufrágios concedeu-lhe o desejo. Mesmo sabendo que perderia a memória do que tinha cá deste lado. 

— Se as sereias não pudessem passar entre dimensões no Portal do Abismo das Lulas, estávamos tramados. Ainda andaríamos à deriva, provavelmente para toda a eternidade. —  disse Polvo acariciar uma enguia.

— Tenho dúvidas que ele quisesse regressar. — cortou Garoupa com receio nos olhos. — Ela deve-lhe ter dado bem a volta, como sempre faz àqueles que leva para o fundo do mar. Ela nunca perdeu a esperança de o levar a ele também para as profundezas. E tem agora uma segunda oportunidade. — Garoupa apertou ansiosamente um dos seus peixes que saiu disparado da mão em direção à areia. O Homem Sem Nome sentiu uma nuvem de estrelas a voar em espiral para o centro de visão e perdeu os sentidos. 

Voltou a abrir os olhos quando um um banho de água gelada lhe quis rachar a cabeça ao meio. A vista a arder do sal percorreu o convés onde várias pernas em botas altas se erguiam como sentinelas. A sua mão aberta sobre a madeira que rangia parecia agora translúcida. Os vultos aguardavam em silêncio enquanto o Homem Sem Nome, o seu capitão, se perdia na catadupa de memórias que o assaltavam sem piedade. A mesma mão que observava naquele momento segurava uma espada, cortava vegetação numa ilha desabitada, afastava água à sua frente entre rochas submersas, segurava uma concha madre pérola ao sol, deixava cair moedas douradas entre os dedos, empurrava um homem de olhos rancorosos da prancha para o infinito azul.

Quando se levantou, era ele próprio outra vez. Capitão daquele outrora majestoso veleiro e daquela tripulação de homens-peixe, um homem que preferia ter vivido noutro lugar com mais confortos.

Quando a tempestade se abateu sobre o mundo, Capitão Arpão estava à proa do navio, uma mão em concha sobre a vista a seguir a linha do horizonte. O seu desejo de desertar esta caixa de fósforos húmida e mal-cheirosa tinha-lhe sido concedido. Tinha apreciado bem os prazeres do mundo moderno, até alguém o trazer de volta sem a menor consideração. Tinha sido aquela Viperia rabo-de-peixe.

— Capitão! Vamos zarpar! — disse Garoupa a aproximar-se. Pôs-lhe uma mão sapuda no ombro em sinal de satisfação e deixou escorregar outro peixe viscoso da mala que trazia ao ombro.

O Homem Sem Nome, agora Arpão, suspirou por entre os pingos da chuva. Teria de ir em busca de mais um tesouro qualquer amaldiçoado quando podia estar, em vez disso, sentado num sofá a comer um balde de gelado. 

Um brilho na água chamou-lhe a atenção. Escamas de um verde intenso passaram velozmente sob a espuma branca de uma onda. Ainda viu o longo cabelo da cor do cobre desaparecer sob um turbilhão de bolhas. Ouviu aquele cantar melódico que assusta qualquer marinheiro mortal e viu uma mão acenar-lhe das ondas que cresciam à medida que o barco se aproximava do mar alto.

— Viperina. Vais pagá-las. — sussurrou Arpão. Uma mão de dedos esguios, onde brilhava um anel de serpentes enroladas, voltou a mergulhar no azul profundo.

O olho

O olho

Tempo de leitura 6 minutos

Um cotovelo pressionou-lhe uma costela e a Clara abriu os olhos. Encostada contra a janela da carruagem do metro, de braços cruzados, abriu um olho ensonado e lançou um olhar furtivo na direção do cotovelo irritante. Ao seu lado tinha acabado de se sentar um matulão que precisava de mais espaço do que aquele que havia disponível. Depois de dispor no chão vários sacos de plástico cheios de coisas e de verter ainda mais para fora do seu banco, os seus olhos cruzaram-se. Nos dois segundos que comunicaram sem falar, o matulão disse-lhe que se não estava satisfeita podia levantar o traseiro e ir para outro lado. Ele gostava de comer pizzas e ia continuar a comê-las. Depois de receber a mensagem, a Clara focou o lugar à sua frente. Era a única ocupante ao entrar para a carruagem cinco paragens atrás, mas podia ver agora outra pessoa sentada no lugar oposto ao seu.

Uma mulher vestindo o que parecia ser um roupão de penas em tons de neon estava descaradamente a observá-la. Os dois brincos em forma de pequenos pássaros oscilavam de um lado para o outro ao ritmo de uma música surda. A Clara piscou os olhos e ponderou passar a ir a pé os cinco quilómetros que separavam a casa do trabalho. Ou então simplesmente deixava de ir. Provavelmente seria o melhor considerando que tinha roubado uma coisa do trabalho hoje. Sentiu as bochechas a arder e desviou o olhar.

O matulão ao seu lado começou a remexer num dos sacos. Sob a camisa que levantou um pouco ao longo das costas ao inclinar-se para a frente, a Clara viu uma pele coberta de pelos ásperos e o início de um rabo. Abanando a cabeça para apagar a imagem da memória, voltou a encostar-se ao vidro gorduroso da janela. Olhou lá para fora, mas só o reflexo da mulher-pássaro apareceu como um fantasma. Não conseguia ter a certeza, mas parecia-lhe ver um ligeiro sorriso levantar-lhe um canto da boca. A Clara fechou os olhos e respirou fundo.

Do fundo do poço da memória chegou-lhe a imagem de um topázio amarelo e os seus dedos trémulos a pegarem-lhe. A pedra rodara-lhe para a palma da mão com faíscas de luz antes de a enfiar no bolso e fechar a pequena caixa de madeira de onde tinha saído. Despediu-se bruscamente dos colegas do museu queixando-se de dores de barriga e correu para o metro. Não conseguia perceber o que a tinha levado a tomar a decisão de roubar a pequena jóia, mas simplesmente não conseguiu resistir. Era como se aquela pedra preciosa perfeitamente redonda emitisse um som que continuaria a subir se a Clara não a libertasse da caixa centenária.

A carruagem travou bruscamente. A Clara ouviu as portas a abrir e a fechar e o silêncio entre as duas coisas. Do seu lado direito chegou-lhe o cheiro de uma sandes de queijo que estivera fechada durante demasiado tempo numa caixa de plástico mal lavada. Colou o nariz ao frio do vidro e voltou a abrir os olhos. A carruagem retomava lentamente a marcha e os tijolos iluminados do túnel sucederam-se até se tornarem uma linha a desaparecer na escuridão. Depois, a mulher-pássaro reapareceu no reflexo como um ser de outra dimensão. Os seus lábios moveram-se como se lhe tentasse dizer alguma coisa. Em vez de olhar para ela diretamente, sentada à sua frente, a Clara concentrou-se na imagem no vidro. Os olhos da mulher ganhavam a cor do âmbar, as linhas ondulantes dos seus lábios, como o reflexo numa água perturbada, formavam letras. A… A tua… A tua saída…

A minha saída? De dentro do meu sonho tentei acordar-me. O balouçar da carruagem deve ter-me embalado. Pisquei os olhos com uma pausa prolongada e voltei a olha para o vidro escurecido como um lago numa noite sem lua. O cheiro da sandes voltou a atacar-me e olhei para a mulher-pássaro à minha frente. Tinha igualmente adormecido. A sua cabeça tombara para o lado como uma peça de caça em exibição. Voltei a fechar os olhos e a enroscar-me contra a janela. Os meus pés roçaram no plástico dos sacos no chão e o matulão bufou qualquer coisa. Esta viagem nunca mais tinha fim.

Desta vez adormeci como deve de ser. Mas fui arrancada ao sono por um puxão violento da carruagem. Ainda não tinha aberto os olhos por completo e já estava a levar as mãos à frente para amparar a queda. As minhas mão assentaram no banco da frente, agora vazio. O matulão ao meu lado também tinha desaparecido. Estava sozinha na carruagem parada.

Uma luz ao fundo da carruagem piscou e apagou-se. A luz por cima da minha cabeça tremelicou. Era o que me faltava agora. Um problema técnico e sei lá quanto tempo de espera. Levantei-me e dirigi-me para uma das portas. Apoiei as mãos em concha no vidro e olhei para fora. Não conseguia distinguir nada. Com um aperto de pânico no peito segui ao longo do corredor até à porta de saída mais próxima. Tinha o maxilar bem fechado. Será que a polícia tinha mandado parar o metro? Será que tinham descoberto que eu tinha roubado o topázio e estavam agora a criar uma armadilha para me apanhar? “Deixa-te de pensamentos idiotas” Nem daqui a um ano vão dar pela falta desta pedra insignificante. Desde que fora trazida para o museu como parte da herança da Condessa de Garça e atirada para a arrecadação com outros objetos de pouco valor que ninguém lhe tinha prestado a mínima atenção. A luz por cima de mim voltou a tremer e olhei para ela só para a ver extinguir-se logo de seguida.

A apalpar o espaço escurecido à minha frente, levo a mão à alavanca da porta. Quando se abre logo de seguida sou inundada por um vento frio que me tira o equilíbrio. Não pela força, mas pela surpresa. Agarro-me a um pilar metálico para não cair para trás. Lá fora vejo o crepúsculo sobre um desfiladeiro emoldurado por altas paredes de rocha. Edifícios e torres aninham-se nas reentrâncias dos picos como ninhos de águias. O som de águas rápidas a passar por entre rochas chega-me aos ouvidos acompanhado pelo aroma de musgo molhado. Ponho-me de joelhos à porta e apercebo-me que a carruagem está parado numa ponte metálica, perto de uma parede de rocha. Numa fileira de luzes verdes espaçadas ao longo do que parece ser um caminho estreito vejo silhuetas a subir na minha direção. Talvez seja este o momento para a tirar para longe o topázio roubado e esquecer que este incidente alguma vez aconteceu.

Ao fim do caminho chega um grande boi com sacolas pesadas de cada lado dos flancos e, sobre o seu dorso, uma ave branca de faixa negra na cabeça e de peito inchado balançando a cada passada do animal. O boi de pêlo áspero, a mastigar qualquer coisa com um odor intenso, bufa pelas narinas no que me parece ser desaprovação. A ave branca olha-me só com um olho, redondo e brilhante com a cor do ouro; o outro está ausente do seu nicho escuro. Sinto um desconforto do meu lado direito e, metendo a mão no bolso, apercebo-me que o topázio, a perfeita esfera amarela, está incandescente com uma luz pulsante no seu interior. À minha frente, o burro raspa os cascos no chão e a ave abre o longo bico de onde me chega uma voz sem som:
— É a tua saída.

Além do muro – parte II

Além do muro – parte II

Tempo de leitura 7 minutos

As sombras esticavam-se nos campos, prontas para adormecer entre as ervas altas. As cigarras calavam-se quando ele passava e os pássaros ajeitavam-se nas copas das árvores. O João correu pelo lusco-fusco a dentro, com medo de ser apanhado pelos raios fantasmagóricos que se arrastavam do outro lado da serra onde o sol se punha.

Isto estava a começar a parecer-lhe uma parvoíce. Ainda nem tinha aberto a caixa aninhada debaixo da blusa. Quando chegou ao portão, já não se refletia lá a luz; esta era engolida, como o seria por um buraco negro. O João revelou a caixa por entre mãos trémulas. Levantou a tampa com o coração a bater descompassado e viu no interior uma chave decorada e um papel dobrado em dois. Pegou no papel e abriu-o. Uma curta frase dançava a tinta preta sobre o fundo amarelado pelo tempo. O João não era exímio na leitura, mas juntado letra a letra leu nas letras tortas da avó:

Não abrir o portão.

Lindo serviço. Estava a acumular transgressão sobre transgressão. Mas não podia evitá-lo. Tinha de saber o que estava além do muro. E agora tinha a certeza de que a chave abriria o portão. A chave, fria ao tato, deslizou pela ranhura como se fosse ali usada todos os dias. As duas metades do portão separaram-se. Com os sentidos em alerta, o João deu um passo em frente. Do outro lado chegavam-lhe os mesmo sons e aromas do início da noite. A lua subia agora no céu, banhando o montado com uma névoa luminosa. O melhor era voltar para trás. Inventar uma desculpa, de que tinha perdido a chave, qualquer coisa, e voltar cá noutro dia.

Uma risadinha, de quem na verdade não tem vontade de rir, chegou-lhe de novo aos ouvidos.
— Eu faço-te num oito, estás a ouvir? — gritou o João a sentir a cara a ferver. Se começasse agora a correr podia ser que ainda escapasse dali vivo.
— Tem calma, rapaz.
O João esbugalhou os olhos e manteve-os fixos no sobreiro à sua frente de onde lhe parecia ter vindo a voz melosa. O sangue que momentos antes lhe aquecia as bochechas desapareceu, correndo pelas veias em direção ao chão como se a gravidade tivesse triplicado.
— Quem é que falou?

Ao lado do tronco, de uma cortiça que parecia nunca ter sido tirada da árvore, revelou-se uma figura sentada. Ajustando os olhos à luz mortiça, o João viu um homem. Um homem de barba. Da sua cabeça saiam dois cornos torcidos. Do seu peito nu prolongavam-se duas pernas de bode. Um dos cascos rugosos e carcomidos batia impacientemente numa raíz exposta. Os olhos da criatura estreitaram-se numa fina linha desafiante.

O João deu meia volta em direção ao portão, mas estava fechado. Correu por entre as árvores, esbarrando contra ramos e arranhando os braços nas cortiças centenárias. Perdeu o chão debaixo dos pés num declive e rebolou por entre os sobreiros, embatendo na árvore que o parou. Atordoado com a queda, o João deixou-se ficar deitado, quieto e de olhos fechados.

— Psst.
O som desceu-lhe do topo da árvore e o João entreabriu um olho, esperançoso de que fosse ver o teto do seu quarto e o nariz curvo da avó a espreitar pela porta. — Pssssst! Aqui!
Num ramo de ângulos irregulares um mocho rodava a cabeça para o observar.
— Sim, fui eu que falei. — disse o mocho. — Moveu a cabeça no sentido oposto como um boneco articulado e, como se falasse para alguém ou alguma coisa pousada noutro ramo, disse:
— A sério que já começo a ficar farto de ter de repetir a mesma coisa sempre que chega aqui um miúdo novo.
— Tu falas? — perguntou o João a achar que tinha batido com a cabeça.
Ainda de cabeça rodada, o mocho disse:
— Estás a ver. Era exatamente disto que eu te estava a falar, Clarice. — O grandes olhos da ave voltaram a focá-lo. — Sabes onde estás?
— Estou além do muro.
O mocho negou várias vezes com a cabeça, exasperado.
— Isso é óbvio. O que eu pergunto é se sabes onde estás.
— Não.
— É agora que entra a minha deixa. Estás além do muro.
O João, ainda deitado entre as folhas, juntou as sobrancelhas.
— Pensava que isso era óbvio.
— Não sejas impertinente, rapaz. Sabes porque estás aqui?
O João optou por não responder desta vez. O que ele queria saber é como ia sair dali.
— Estás aqui para veres o que precisas de ver. – disse o mocho a insuflar as penas.
— Não me lembro de precisar de ver um mocho falante.
O mocho voltou a rodar a cabeça, desta vez mais rápido, e falou para o espaço atrás de si.
— Este é dos que acham que são espertos.
— Estás a falar com quem?
— Mete-te na tua vida, rapaz. Achas que ainda não tens problemas que cheguem? — piscou um olho amarelo de cada vez e abriu o bico na direção do rapaz estendido no chão. — Pensa naquilo que eu te disse. E agora, corre, rapaz. Corre!

A urgência nos olhos do mocho fê-lo levantar-se e começar de novo a correr. Entre os pios da ave surgia o som de cascos a bater no solo fofo de folhas. Um grito dilacerante cortou o ar húmido e fez-lhe gelar o sangue nas veias. A voz da criatura meio-homem, meio-bode falou-lhe de longe como se lhe sussurrasse ao ouvido.
— Anda cá.
— Não! Deixa-me!
— Anda cá, fedelho.
— O que é que tu queres? — perguntou o João a tentar conter as lágrimas.
— Não aparecem aqui muitos humanos, sabes? — de trás de um arbusto rasteiro mesmo à sua frente, saltou a criatura com um esgar onde brilhava a luz do luar. — E eu estou tão fraco. Estou tão cheio de fome.

O João lançou-se de novo numa corrida desenfreada entre as árvores até ver uma luz como um farol na base de um grande carvalho. Esculpida no grosso tronco da árvore estava uma porta de madeira entreaberta. A luz escorria do interior oco para o ar húmido da floresta. O João escancarou a porta com um movimento brusco e atirou-se para o interior da árvore. Lá dentro, uma pequena sala curva abriu-se perante os seus olhos. Parecia que alguém descarregara a sua fúria nos objetos que a compunham. Uma mesa tombada com livros de capa dura espalhados pelo chão; frascos rachados com restos de líquidos coloridos desordenados em prateleiras; tachos vazios atirados ao acaso, e uma manta enrolada em frente ao fogo apagado que não aquecia a sala. Uma poltrona de tecido rasgado e uma criatura meio-homem, meio-bode sentada nela. As pernas cruzadas e, novamente, um casco a bater impacientemente no chão de terra.
— Ainda bem que decidiste juntar-te a mim. Estava a ficar cansado, e já não tenho muita energia. — A criatura massajou com suavidade a pêra encrespada que lhe crescia no queixo.
O João olhou para trás, para a porta que já estava fechada.
— O que é que queres? — perguntou o rapaz de olhos arregalados.
— Preciso de me alimentar e esta floresta maldita já não tem nada para me oferecer. Preciso de alguém assim, jovem como tu.

O ser híbrido saltou da poltrona e atirou-se ao João. Abriu a sua boca num grito fedorento mesmo em frente ao seu nariz e pôs-lhe as mãos peludas à volta do pescoço. O João tentou falar para argumentar, mas a sua voz saiu-lhe num pio. Um pio sonolento, como o do mocho falante. Prestes a desistir de lutar, o João viu na sua memória a ave de penas insufladas no troco irregular. “Estás aqui para veres o que precisas de ver.”

O João fechou os olhos e imaginou o meio-homem, meio-bode encolhido no canto da sala a chorar de solidão. Uma criatura fantástica, mas, no fundo, um homem como qualquer outro homem, sem nada de especial. Um mero mortal fraco e esfomeado. Imaginou-o cada vez mais pequeno, cada vez mais pequeno. Minúsculo. Sentiu as mãos no seu pescoço a afrouxarem e a largarem-no. Quando o João abriu os olhos, a criatura tinha reduzido para o tamanho de um gafanhoto. Furiosa, tentava trepar pela perna do João, mas foi sacudida com um pontapé. O rapaz levantou-se e apercebeu-se da sua própria altura. A criatura olhou-o com olhos invejosos e aninhou-se na manta, vencido.
— Desaparece, fedelho. — disse a criatura. — O próximo que aparecer por aqui não vai ter tanto sorte. Já não tenho nada a perder.

Antes do João sair do tronco da árvore, viu o estranho ser a olhar com determinação para os frascos meio-vazios nas prateleiras.

Lá fora, o ar frio da noite cobriu-o como um bálsamo. Andou vagarosamente por entre os sobreiros e apreciou os sons da noite. O que antes lhe parecia ameaçador era agora fascinante. O muro encontrou-o satisfeito a passar os dedos em cortiças centenárias e a sussurrar a melodia que a avó lhe cantava quando era pequeno. O portão estava aberto e o João saiu, fechando-o atrás de si.

 …

O Carlos assobiava no caminho para a escolha quando foi abalroado sem dó nem piedade. Rebolou pelo chão até parar com a boca a comer o pó do chão seco de verão. À sua frente afastava-se uma bicicleta a grande velocidade. Ele reconhecia aquele trinca-espinhas em qualquer lugar. Era o badameco do João. Mas se ele achava que fazia farinha com ele estava muito enganado. O grupo já o apanhava no recreio. No mínimo uma sova. No máximo, bem, no máximo a imaginação era o limite.

Endireitou-se com uma dor dilacerante num cotovelo. Quando ainda rogava pragas impróprias para serem ouvidas por pessoas de bem, reparou num objeto brilhante a revelar-se entre o pó que assentava agora no chão. Uma chave brilhante, com um trevo de quatro folhas esculpido no metal. Atada a ela com um elástico um pequeno papel que o Carlos se apressou a abrir:

Não abrir o portão.

O Carlos largou uma gargalhada. Se aquele palerma achava que podia manter segredos dele estava muito enganado.

Além do muro – parte II

Além do muro – parte I

Tempo de leitura 6 minutos

O João mastigava uma bolacha e dava pontapés nas pedras soltas enquanto caminhava ao longo do muro. Este não era o caminho que o trazia da escola, mas o que o trazia de um dia de deambulações pelo campo. Insetos esvoaçavam na sombra fresca e brilhavam como partículas de pó cada vez que cruzavam os feixes de luz de verão a penetrar as copas das árvores. O ar cheirava ao musgo seco que crescia nas pedras antigas e rugosas. Para a sua esquerda o terreno descia por entre os sobreiros até ao campo aberto onde ondulavam as papoilas vermelhas. Para a direita ziguezagueava o muro que o separava de sabe-se lá o quê.

O caminho que seguia levava-o até ao limiar da aldeia onde vivia com a sua avó. Por esta altura ela já o esperava, enterrada entre as almofadas do sofá na pequena sala sombria. Quando ele batesse à porta, ela iria espreitá-lo da pequena janela que furava a parede espessa e mantinha o calor do dia afastado. Ela dir-lhe-ia para entrar na penumbra e para se sentar com ela, e contar-lhe o que se passara durante o dia. Ela iria querer saber como tinha corrido a escola, e ia olhá-lo com as suas azeitonas pretas prescrutadoras e desconfiadas. Mas quem sabe até lhe ofereceria um prato de bolachas cozidas no forno a lenha. E um copo de leite fresco. Por agora ainda tinha de acabar o percurso ao longo do muro que escondia do outro lado o desconhecido. Ainda não era alto o suficiente para conseguir espreitar, mas até podia ser um pomar com frutas maduras prontas a serem apanhadas. Talvez fosse algo que valesse a pena descobrir.

Mais à frente reparou numa reentrância nas pedras que nunca tinha reparado antes. Quando se aproximou, abriu muito os olhos ao perceber que era um pequeno buraco circular, com uma curva bem redondinha, que atravessava o muro de um lado ao outro. Aproximou o olho até as pestanas tocarem na pedra e focou o que o esperava do outro lado. À sua frente pendia de uma árvore uma maçã vermelha, tão redonda como o buraco por onde espreitava. Um raio de luz iluminava-a como se estivesse num palco, revelando-a brilhante e sumarenta.

O facto de não ser época de maçãs não o demoveu de tentar trepar o muro com garra. As pontas dos pés em equilíbrio instável nas finas ranhuras entre as pedras; as pontas dos dedos, como pinças, a tentar desafiar a gravidade. Com uma acrobacia digna do circo, o João tombou para trás aterrando em cheio nas urtigas. Pelo orifício chegou-lhe uma risadinha. Ele levantou-se com um movimento brusco como se finalmente sentisse as picadas das urtigas nas mãos e voltou a espreitar pelo buraco. Quem era o parvalhão que se estava a meter com ele? Só podia ser o Carlos. Se não fosse pelos amigos brutamontes do Carlos-com-Dentes-de-Coelho com quem cruzava o recreio da escola com ares convencidos, seria tão gozado como o João. Por essa razão, e por outras razões sumarentas que pediam de árvores, o João-Trinca-Espinhas fazia muitas vezes este caminho que o levava para longe da escola em tempo de aulas. Sem dizer nada, começou a correr ao longo do muro à procura do sítio ideal para subir. Caramba, estes muros eram tão velhos, havia de certeza algum sítio no topo de onde teriam caído algumas pedras.

Numa zona em que o muro se afastava do caminho, entrando pela zona sombria dos carvalhos, o João não deu de caras com um muro em ruínas, mas sim com um portão de metal compacto digno de uma daquelas casas assombradas no topo de um monte com a lua cheia por trás a revelar os seus contornos retorcidos. Será que isto era afinal a propriedade privada de algum senhor? Sentado no seu sofá de pele no seu solar húmido a ver as brasas da lareira apagarem-se?

Passou os dedos melo metal e observou o desenho em espiral que começava na fechadura. Os seus olhos desenharam-na, parando só na curva final rematada por um trevo de quatro folhas. Fechou os olhos e, por entre os seus olhos semi-adormecidos de bebé, viu a sua avó a cantar-lhe uma canção de embalar junto à janela. Do outro lado do vidro, um melro preto de bico laranja acompanhava a canção com um trinado límpido. Encostando a cabeça ao peito da sua avó sentiu o bater do seu coração junto ao ouvido, mesmo atrás da corrente que tinha ao pescoço. A corrente de onde pendia uma pequena chave dourada com o relevo de um trevo de quatro folhas.

O reviver da memória rebentou como um balão de água na sua cabeça. Lembrava-se da chave que a sua avó tinha usado cada vez menos ao pescoço, até deixar de a usar por completo. Só podia estar guardada num sítio. Na pequena caixa de madeira escondida debaixo da cama. Lembrava-se, já mais crescido, de ter levado dois berros, daqueles que não dão margem para argumentação, quando numa das suas deambulações pelo quarto da avó, tinha enfiado a mão pela boca escura que era a parte de baixo da cama. Ainda viu os padrões de embutidos da caixa, mas não chegou a ver o que estava no interior.
Respirou fundo o cheiro da cortiça e das flores quentes e viu a luz do pôr-do-sol refletida à sua frente no metal brilhante. O dia estava a chegar ao fim. Se queria descobrir o que estava para lá deste muro, tinha de o fazer antes de escurecer. E já só tinha menos de uma hora. Quando rodou nos calcanhares para o caminho que o levava a casa pareceu-lhe ouvir outra risadinha atrás de si.

— Mas onde é que tu andaste? — perguntou a avó de lenço preto da cabeça. Tinha uma mão inquieta na ombreira da porta e olhos negros desafiantes.
— Desculpa, avó. Distraí-me com uma coisa pelo caminho.
— Andaste a apanhar fruta, não foi?
— Uh, sim. Umas laranjas perto da casa do Armindo. — olhou de soslaio para a avó, mas ela pareceu não reparar que as laranjas estavam fora de época. A preocupação devia estar a toldar-lhe o juízo.
— Isto são umas ricas horas. As aulas hoje duraram mais tempo?
— As aulas? Sim.
Ela agarrou-lhe no braço com uma força que não seria de esperar de dedos deformados pela artrose.
— Foste à escola?
— Onde é que eu havia de ter ido?
— Andam a meter-se contigo outra vez? João, tens de enfrentar os teus medos.
— Tu é que me metes medo! – disse ele a rir.
Ela suspirou e largou-o.
— Apressa-te a ir para o banho que já te pus lá água quente. Já deve estar gelada.

Da minúscula casa de banho, o João olhou para a cozinha com a fogueira acesa no chão e um pote preto de três pernas sobre o lume. A sua avó, de costas voltadas para ele, depenava alguma coisa deixando penas pretas pairar até ao chão.

Pé ante pé, o João atravessou o corredor e abriu a porta do quarto da avó. A cama singela com os lençóis impecavelmente esticados jazia no meio do quarto, envolta no aroma de alecrim e sabão. O João deitou-se no chão torto de madeira e esticou um braço por baixo da cama. Por momentos a esperança tremeu quando tateou e não encontrou nada. Mas lá estava ela, a pequena caixa, encostada contra a parede. Com suores frios a percorrerem-lhe o pescoço, tentou não pensar nas consequências dos seus atos. Simplesmente enfiou a caixa de baixo da roupa, saiu do quarto em direção à porta da rua, e começou a correr. Quando teve coragem de olhar para trás, viu a sua avó à porta, de braços cruzados, o lenço negro a toldar-lhe os olhos. Por baixo deles… um sorriso?

A inspiração

A inspiração

Tempo de leitura 7 minutos

O telhado de zinco, inclinado sobre a entrada da casa, deixava cair uma torrente de água atrás do homem de gabardina especado à porta, como um véu que só se transpõe num único sentido. Voltar para trás, para a chuva insistente, era impossível. Sentia o nariz gelado e o pingo que se formava na ponta teimava em não cair. Não o ia sacudir com a mão. Não, ela estava aninhada no bolso a envolver o cabo de um revólver. E só ia sair de lá quando fosse para o disparar.

A porta abriu-se. Os olhos acima de um pescoço duplo de mulher olharam-no como se fosse a falsificação de um jarro ancestral.
— O que é que quer?
— É aqui que mora o Iuqui? — Os olhos da matriarca tremeram por uma fração de segundo, a única expressão de que o nome tinha surtido efeito.
— Não.
— Não?
— Não. — Os mesmos olhos fundos percorreram-no de alto a baixo e suavizaram só ligeiramente. A imagem de um homem encharcado, de olhos descaídos tocaram-lhe algures lá dentro, além da carapaça volumosa. — Ele já não mora aqui.

A mulher percebeu a hesitação do estranho que olhou aleatoriamente da casa no topo do morro até às montanhas distantes, envoltas na neblina da chuva. Permaneceram os dois imóveis por momentos, a mão a envolver o revólver a afrouxar.
— Não me sabe dizer para onde é que ele foi morar?
— Ninguém sabe.
— Como assim?
— O Iuqui é um Desaparecido. — A palavra deve-lhe ter arranhado a garganta porque o corpo da mulher curvou-se violentamente num espasmo de tosse seca. O homem de gabardina parecia ter sido atingido com uma mão aberta pois estava lívido quando o olhar nublado acima do pescoço duplo se prendeu nele novamente. A mulher pigarreou e continuou.
— Juntou-se àqueles que saem um dia para ir trabalhar e não voltam. A pasta que levava na mão foi encontrada em cima de um banco na estação. O casaco delicadamente dobrado sobre ele, com o forro para fora para não sujar o –
A menção da mala suscitou o interesse do estranho que se inclinou para a frente, cortando a meio a frase da mulher.
— Sabe o que estava dentro dessa mala?
— O que eu não sei é quem o senhor é.
Ele acenou, pensativamente.
— Claro. Posso entrar?

A mulher lançou um olhar fugidio sobre o seu ombro para o interior escurecido atrás de si. Empurrou a porta, dando-lhe o espaço necessário para passar. Ele curvou-se, agradecendo o gesto. Passou o limiar da porta para uma sala ampla na penumbra. Além dos painéis translúcidos por onde passava a luz cinzenta filtrada pela chuva, reconheceu a silhueta de um jardim de pedra. O som gorgolejante de uma cascata artificial sobrepondo-se ao som adormecido da água na rua. Descalçou-se e retirou a gabardina. Gotas escorreram e pingaram para o chão de madeira brilhante recentemente encerado. Uma mesa baixa no meio da sala suportava duas chávenas de chá fumegantes. O aroma de ervas quentes chegou-lhe ao nariz e precipitou a gota que de lá pendia em direção ao chão.
— Está à espera de alguém? — perguntou o homem a dar um passo atrás. A mulher chocalhou o queixo ao dizer que não vigorosamente.
— Não é nada. Sente-se.
O homem baixou-se e sentou-se de pernas cruzadas diante da mesa.
— Quer que lhe sirva um chá? — O homem olhou para a chávena à sua frente, largou o revólver e rodeou a chávena com as mãos para as aquecer. Ela congelou a meio da descida para se sentar e olhou em volta disfarçadamente.
— Chamo-me Temon. — A mulher ignorou-o, semicerrando os olhos quando o vapor do chá lhe nublou a vista. Deu um trago audível e manteve os olhos fechados.
— Porque é que está aqui?
— Tinha contas a acertar com o Iuqui.
Ela esperou. Lá fora a chuva abrandou e o tempo acompanhou-a. O homem perdeu o olhar no líquido âmbar à sua frente, tentando ler os seus reflexos como sinais.
— Há vários anos, eu era um escritor.

Um som veio do jardim de pedra, como um seixo a rolar e a cair na água. Ele olhou-a sobressaltado, mas os seus olhos permaneciam fechados. A cabeça apoiada no queixo duplo, os cantos da boca desacídos, como um buda adormecido. Ele continuou.
— Como eu estava a dizer. Era um escritor. Pelo menos eu achava que era. Sentia que era. Mas nunca tinha escrito nada. Até ao dia em que fiz uma caminhada até ao topo do vulcão de Ina. Quando me sentei a descansar da subida, adormeci encostado a uma rocha. Quando acordei desceu sobre mim uma história que eu tinha de contar. É como consigo explicar o que aconteceu. Era como se me tivesse sido oferecida, caída de uma nuvem de passagem. E eu decidiria se a iria contar ou não. E decidi contá-la.

Outro som precipitado chegou do jardim. A água da pequena cascata parecia ter duplicado de volume. O gorgolejar tinha-se tornado numa torrente de água. Temon endireitou-se e tentou discernir as formas além dos painéis translúcidos. Uma sombra movia-se como fumo, dançando por entre os conjuntos de pedras ornamentais. A voz da mulher interrompeu-lhe a descoberta.
— E então?
— E então? — repetiu ele, de olhos irrequietos. — Ah, sim. Comecei a escrever a história. Quase como se estivesse possuído. Depois encontrei trabalho. Um trabalho honrado em sociedade e deixei a história adormecer numa gaveta. Eu tinha intenção de a continuar um dia. Mas estava ocupado.
— Claro. — disse ela sem o mínimo toque te convicção na voz.
— Anos mais tarde, quando passava os olhos pelos livros de uma banca de livraria, vi-o. O meu livro, com o mesmo título. Acabado e publicado. Peguei-lhe com mãos fracas do susto. Não sei porque é que estava à espera de ver lá o meu nome, mas estava. Claro que não o vi. Vi o de Iuqui. O homem que me roubou a história.
— Hmm. Como é que sabe que ele a roubou?
— De que outra maneira é que isso seria possível? — perguntou Temon a subir a voz. —- Deve ter-me seguido um dia, entrado em minha casa, forçado a fechadura da gaveta e tirado o manuscrito do seu interior.
— A gaveta tinha a fechadura forçada?
Ele ignorou a pergunta e continuou a falar.
— Vim aqui para acertar contas com ele e retomar a minha honra como o autor da história.
A mulher atirou a cabeça para trás e largou uma gargalhada sonora. Os painéis translúcidos tremeram com a força do som. Temon inclinou a cabeça estupefacto.
— Como é que isto tem piada?
— Acha mesmo que alguém é o dono de alguma história? — Os seus olhos não estavam para brincadeiras. Furavam-lhe os seus como lanças. — Não me disse que a história lhe tinha sido entregue? Como é que pode assumir que é sua?
O homem encolheu-se, confuso perante o disparo de perguntas.
— As histórias são de quem as apanhar. — continuou ela. — Se deixou a sua fugir, muito provavelmente porque ela se fartou de esperar, a culpa é só sua. A sua história foi entregue a outro. Outro mais aberto a aceitar a inspiração.

Temon sentia o coração a martelar-lhe nos ouvidos. A mulher sorveu o chá e esboçou um sorriso de antecipação. Um dos painéis que davam para o jardim deslizou suavemente, revelando o exterior húmido. Lá fora, a água da cascata saltava por entre pedras escuras e brilhantes. O ar cheirava a musgo e a folhas molhadas. Um bonsai, com as folhas vermelhas de outono, cortava o cinzento de fundo como um rubi. Sentado sobre uma grande pedra na margem da água estava uma figura envolta num manto que lhe tapava também a cabeça. Tinha as pernas dobradas, os joelhos encostados ao corpo, e o queixo assente sobre eles. Observava a água a cair.
Temon virou-se para a mulher e falou num sussurro.
— Quem é aquele?
Ela ignorou-o uma vez mais.
— Lembra-se da mala que Iuqui deixou no banco da estação?
O homem voltara a observar a figura no jardim de pedra. Ela continuou.
— Lá dentro, Iuqui deixou uma história por acabar. Assim como a história que te foi dada a ti, Temon, esta inspiração foi-lhe dada a ele. Mas ele não teve a coragem necessária para a aceitar. Por isso decidiu fugir e deixá-la voar para outro. Outro que esteja disponível para trabalhar com um demónio da inspiração. — A mulher curvou-se e retirou um bloco de folhas amareladas debaixo da mesa. – Esta história está à tua espera Temon. Tens coragem?

Lá fora, a figura levantou-se e virou-se para o interior da sala. Sob o manto negro, uma pequena criatura de olhos roxos luminosos sorriu ao homem da gabardina. Os seus dentes pontiagudos reluziram como pequenos diamantes. Temon sentiu-se repentinamente inebriado de excitação. Aquela excitação que surge no peito e que pode ser medo. Mas que também pode ser inspiração. Virou-se para a mulher que o observava de olhos muito abertos e pegou no manuscrito sobre a mesa. A primeira folha, coberta por uma película de pó, revelava o título da história. Depois, virou-a e começou a ler.
A mulher levantou-se, com muitos anos sobre as costas.
— Vou preparar-te o quarto, Temon. — Depois olhou para o pequeno demónio de jardim que estava agora entretido a fazer desenhos na água. — E tu. Vê lá se te portas bem desta vez.

Os abutres

Os abutres

Tempo de leitura 6 minutos

— Estou a morrer de sede. — disse ela a inclinar a cabeça para trás sob o sol escaldante.
— Vamos parar ali mais à frente para beber água. — disse ele a apontar para uma árvore isolada no vale. Os ramos mais altos balançaram ao sabor de uma brisa invisível como que a chamá-los para perto. Tinham saído do trilho principal há mais de duas horas e estavam cada vez mais embrenhados no meio da terra arrepanhada de montes cobertos de vegetação rasteira. Alguns abutres circulavam no céu à sua frente.
— É só esta a água que temos? — perguntou ela ao pegar na garrafa a chocalhar.
— É. Mas devemos estar quase a chegar. — respondeu ele a ouvi-la despejar o resto de água para dentro da boca. Ela limpou-se com a manga e olhou-o no olhos à espera de conseguir ler o que lhe ia na cabeça. Não era fácil. Ele tinha um ligeiro sorriso estampado nos lábios em sinal de otimismo. Ela retribuiu-lhe o sorriso só com um lado da cara.
— Vamos continuar? — perguntou ele, mais para ele próprio do que para ela.
— Tenho só de ir tratar ali de um assunto que ninguém pode tratar por mim. — disse ela a apontar para um arbusto espesso.
— Claro. Eu espero aqui.

Ele viu-a afastar-se. As botas cobertas de pó. A sua sombra pequena sob o sol vertical. Quando ela desapareceu atrás da vegetação ele meteu uma mão no bolso. Confirmou que ela não estava a olhar e retirou uma bússola que apoiou na mão aberta. Depois de forçar os olhos a focar o pequeno instrumento sob a luz branca do sol, o ponteiro do norte apontou em frente, ao longo do caminho que seguiam. Ele suspirou e olhou para o horizonte onde dançavam ondas de calor. Deviam estar a ir para sul.
Ele ouviu ramos a remexer à sua direita e apressou-se a enfiar o instrumento no bolso.
— Estou pronta.
— Vamos.
— É para continuar em frente?
— É.

— Pára.
— O que foi?
— Ouviste aquilo?
— Não. O que é que foi? — perguntou ele a rodar sobre os calcanhares em todas as direções.
— Pareceu-me ouvir qualquer coisa a vir daquele lado.
— Dali?
Olharam os dois para um aglomerado de rochas ligeiramente elevado. Ele pegou nos binóculos que trazia ao pescoço e focou a área de interesse ao longe. Enquanto ele observou as rochas, silencioso, ela observou-o a ele. Uma gota de suor isolada escorria-lhe ao longo da orelha esquerda. Conseguia perceber que as sobrancelhas estavam juntas numa linha inquisidora.
— Mas o que é que ouviste mesmo?
— Pareceu-me uma voz.
Ele deu um passo inquieto sem sair do mesmo sítio.
— Vou lá ver. — disse ele. Depois afastou os binóculos e fitou-a. Ela achava que também conseguia perceber esta expressão. Parecia mais circunspecta, com os cantos dos lábios ligeiramente virados para baixo.
— Vou contigo?
Passaram dois segundos antes de ele lhe responder.
— Não. É melhor não. Esconde-te atrás de um arbusto.

Os dois separaram-se, caminhando em direções opostas. Ela quis olhar para trás para ter a certeza de que ele estava a ir para o aglomerado de rochas, mas achou que seria uma ação imprudente. Ou será que o estranho seria não olhar, para confirmar que estava tudo bem? Os testes de empatia que faziam a androids eram uma piada.

Quando um humano chora? > Enrugar a testa e juntar as sobrancelhas.
Quando um humano ri? > Sorrir ligeiramente, mesmo que não se saiba o porquê.

Mas depois na realidade eram colocados em situações dúbias que não conseguiam ler. Exibiam um sorriso de satisfação em vez de um sorriso de pesar num funeral e, claro, tornavam-se demasiado óbvios. Mas ela acreditava que tinha um dom especial. Conseguia ler bem as nuances complicadas dos humanos. Exceto as dele. Ele era um desafio.

Quando chegou ao arbusto e se virou para o observar entre os ramos secos não o viu em lado nenhum perto das rochas. Os seus olhos lançaram-se para cima e para baixo ao longo do caminho, mas nada. O seu sistema fez um bip de alarme. Não muito longe dali os abutres rodopiavam incessantemente como se tivessem encontrado uma carcaça. Será que eles previam quando um animal ia sucumbir ao calor e simplesmente esperavam?

Começou a atravessar o caminho, primeiro a andar calmamente, depois, a correr. Não estava preocupada com o som que tinha ouvido da área das pedras porque na realidade não tinha ouvido nada. Subiu a rocha mais alta e olhou para todos os lados. Ele tinha desaparecido. E ela, claramente, tinha sido desmascarada. Qual teria sido a dica? Não lhe ter perguntado se queria o resto da água? Tivera dúvidas nessa situação. Mas hesitar tinha sido ainda pior. Mas não, já deve ter sido antes. Ele também deve ter as suas qualidades. Caso contrário não seria um alvo tão importante a abater.

Ele mexeu-se desconfortável. O arbusto seco onde se tinha enfiado tinha uns picos afiadíssimos que atravessavam a roupa. Esperou imóvel e finalmente viu-a aparecer sobre as rochas. O corpo esguio, como um gato, saltou de rocha em rocha até ao ponto mais alto. Os abutres ao longe formavam-lhe uma coroa em movimento sobre a cabeça.
Este trabalho estava a ser mais complicado do que originalmente esperara. Ele tinha quase a certeza que ela o enganara com um som que não tinha ouvido. Estava demasiado calma, pouco interessada em perceber que ameaça os esperava atrás das rochas, e mais interessada nele próprio. Provavelmente já o tinha topado. Mas claro que ela também devia ter as suas qualidades. Caso contrário não seria um alvo tão importante a abater.

Quando ouviu o som de ramos secos a estalar era tarde demais. Uma mão arrastou-o para fora do arbusto, os picos a rasgarem-lhe a pele. Os seus olhos cruzaram-se. Ela não estava satisfeita. Era a primeira vez que o demonstrava e isso deu-lhe a ele alguma satisfação. Podiam deixar cair as máscaras.
— Quem és tu? — perguntou-lhe ela entre dentes.
— Sou um guia, não é óbvio? — respondeu ele com um sorriso aberto.
Ela inclinou a cabeça, intrigada. Estavam agora os dois sentados no chão seco. As cigarras cantavam alto. Ela tinha afrouxado a mão que lhe agarrava a perna.
— Não percebes sarcasmo?
— Claro que percebo.
— O que é que eu estou a sentir agora?
Ela inclinou agora a cabeça para o outro lado.
— Medo?
Ele riu-se com vontade.
— Não. Estou mais divertido do que outra coisa.
— Não me vês como uma ameaça, é isso? – perguntou ela. Alguma coisa doía-lhe lá dentro no peito.
— Claro que vejo. Mas pelo menos agora podemos falar abertamente, o que torna a coisa mais interessante.
Ele sacudiu o pó da roupa e fez um trejeito com a boca ao passar por cima de cortes nos braços. Estendeu-lhe a mão.
— Sou o Dia. E não sou guia. — rematou a rima com mais uma exposição de dentes brancos. — Sou um assassino profissional ao serviço da coroa deste planeta.
Ela levantou um canto da boca, incerta se estava com vontade de ter contacto com a pele de outro ser. Finalmente acedeu dar-lhe a mão.
— Sou a Noite. E não sou diplomata a ir para a Conferência de Estados. Sou um adroid programado para te matar.
Ele apertou-lhe a mão com força e puxou-a para si. Os dois rebolaram pela terra. Ele puxou de um punhal escondido debaixo do braço; ela ativou a descarga elétrica para os dedos e colocou-lhe a mão à volta do pescoço.

Quando a noite desceu e as duas luas subiram no céu por entre as estrelas, o frio instalou-se. Os abutres estavam recolhidos nos seus ninhos, adormecidos; os seus bicos aconchegados por entre as penas insufladas. Antecipavam com satisfação o pequeno almoço reforçado que iam ter aos primeiros raios de sol.