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A tempestade – parte II

A tempestade – parte II

Tempo de leitura 5 minutos

Com uma energia alimentada pela adrenalina, tentei afastar a primeira caixa da pilha sobre os degraus. Era pesadíssima. Arrastei-a com esforço até cair no chão de madeira. Sons de vidro a estilhaçar soaram abafados no seu interior. A segunda caixa era ainda mais pesada e só a consegui mover alguns centímetros. Sem pensar duas vezes, rasguei a tampa e espalhei à minha volta os livros empilhados no interior. Fui removendo caixa a caixa como as camadas de uma cebola, com os olhos marejados de lágrimas pelo esforço súbito que tinha feito. Passei por cima da última caixa e subi o resto da escada com as mãos nos degraus. Ao cimo das escadas olhei para a direita e a esquerda ao longo de um corredor. Portas fechadas decoravam as paredes de ambos os lados.
— Estou cá em cima. — disse eu na expectativa que novas pancadas me indicassem o caminho.
Silêncio.

Lá fora a chuva martelava impiedosamente contra o telhado e ramos rangiam dobrados pelo vento.
Comecei pela esquerda a abrir portas. Um quarto vazio. Um quarto com uma cama sem colchão. Segui ao longo do corredor e passei as escadas. Abri mais uma porta para um quarto com a janela partida. O ramo de uma árvore atravessava o vidro até tocar no chão e água escorria ao longo da madeira para dentro do quarto. Será que tinha sido este ramo que eu ouvira a bater no chão? Será que estava a imaginar coisas? Quando estava prestes a fechar a porta apercebi-me de uma forma aninhada num canto escuro. Era um baú. Entrei no quarto e observei-o de perto. Não estava coberto de pó como o resto da casa e a tampa levantou sem fazer ruído. No seu interior estava uma caixa mais pequena. E no interior desta, uma coleção de relógios e jóias de mulher perfeitamente alinhadas. O pendente de um colar tinha o nome “Raquel”, outro, o nome “Joana”. Fechei a tampa com um sobressalto. Não estava a gostar nada disto.

Quando me levantei para sair do quarto, o ramo que atravessava a janela foi puxado para trás com uma guinada de vento que fez tombar a árvore na direção oposta. Vidros rachados partiram-se e precipitaram-se para o chão, deixando a janela escancarada como uma ferida aberta. Olhei pela abertura, afastando gotas dos olhos, e vi uma escada exterior presa à parede que desembocava na janela do quarto. Um carro enferrujado com ervas altas a sair pelas janelas estava esquecido nas traseiras da casa. Ao seu lado, uma fogueira apagada espalhava cinza negra ao longo de fios de água que deslizavam em todas as direções. Do céu irrompeu um trovão seguido de um raio, iluminando a área como o flash de uma fotografia na cena do crime. Por entre a cinza molhada brilhou um osso branco. E depois, outro.

Saí da casa a correr tropeçando nos livros espalhados no corredor do piso térreo. Quando levantei do chão a bicicleta molhada, a chuva pesada transformou-se numa nuvem de gotas leves e reluzentes. A luz do dia, finalmente a cortar por entre as nuvens que se dissipavam, mostrava-me o trilho além do ramo tombado. Sem olhar para trás pedalei furiosamente entre os arbustos encharcados, o aroma da terra molhada a impor-se na minha respiração acelerada. Ainda não tinha formulado as frases no meu pensamento. Só agora me atrevia a deixar as palavras agruparem-se num alinhamento com nexo. Descobrira, por um acaso do destino, o local onde as mulheres desaparecidas tinham perdido a vida. Sentia um misto de emoções. Por um lado, o terror dos seus últimos momentos insistia em formar imagens na minha mente, por outro lado, a expressão de alívio do Jorge dava-me alento para continuar.

Quando cheguei ao tribunal, deixei a bicicleta tombar sobre os degraus de entrada e entrei para o hall de mármore frio, seguido pelos gritos irritados do segurança. A andar para a esquerda e para a direita como uma barata tonta, o assistente do advogado de defesa do Jorge correu na minha direção.
— Carlos, mas que raio! Pensávamos que já não vinha. Estou farto de lhe ligar para…
— Ouça-me com atenção. — disse eu a agarrar-lhe nos braços com as duas mãos. Tentei estabelecer uma ligação com o olhar, mas o assistente olhava interessado para o meu cabelo desalinhado. — Eu descobri o esconderijo do verdadeiro assassino.
O assistente endireitou-se no fato demasiado largo e formou uma ponte com as duas sobrancelhas.
— Do que é que está a falar?
— Não perca tempo. Chame aqui um polícia, tenho de lhe dar a morada. Tenho a prova de que precisávamos!
O assistente rendeu-se ao meu sorriso e copiou-o. Depois, ainda com uma expressão baralhada, deu meia volta e dirigiu-se para uma sala de grandes portas de madeira polida. A meio caminho parou e virou-se de novo para mim.
— Antes que me esqueça. O Jorge tinha-me pedido para lhe passar este bilhete quando chegasse.
Agradeci com um aceno rápido e peguei no papel dobrado, vendo o assistente desaparecer atrás das portas. Abri o papel:

Carlos, obrigado por tudo. És um verdadeiro amigo.
Jorge

Quando levantei os olhos procurei um lugar para me sentar. Arrastei-me até um banco corrido de mármore e deixei-me cair. Por momentos segurei a cabeça entre as duas mãos, como se houvesse o perigo de se desprender do resto do corpo. Depois, meti uma mão gelada no bolso do casaco.

Quando o assistente regressou, acompanhado de um polícia e outras duas pessoas com ares gananciosos, eu ainda estava sentado de olhar perdido nos sapatos de salto alto que passavam à minha frente.
— Carlos Alves? — perguntou o polícia a engrossar a voz. Eu acenei lentamente a cabeça. Ainda a sentia estranhamente pesada. — A equipa de defesa do sr. Jorge Silvano diz-me que quer participar um acontecimento. Faz parte das testemunhas de defesa, correto? — perguntou novamente ele a sentar-se ao meu lado. Eu olhei-o nos olhos muito abertos.
— Não. Faço parte das testemunhas de acusação.

Queixos caíram à minha volta. O assistente do advogado de defesa ajoelhou-se à minha frente e pegou nos dois papeis abertos sobre os meus joelhos. Um, o bilhete passado pelo Jorge ainda há pouco. O outro, a nota que tinha estado presa na porta da casa abandonada. Em ambas, corria, ligeiramente inclinada para a direita, a mesma caligrafia.

A tempestade – parte II

A tempestade – parte I

Tempo de leitura 7 minutos

Afrouxei a intensidade dos pés nos pedais da bicicleta e observei o céu que se tinha intensificado com uma cor de petróleo. Gotas como alfinetes caíam espaçadas no meu impermeável, escorrendo ao longo dos braços esticados. Era o prenúncio da tempestade que aí vinha. Suspirei e semi-cerrei os olhos apoiados em duas olheiras fundas. Ainda sentia o calor dos lençóis como se nunca tivesse chegado a sair da cama, mas o ar gelado da manhã teimava em despertar-me da noite mal dormida. As gotas tornaram-se pesadas e rebentavam-me na cabeça despida como balões cheios de água. O capacete tinha dado jeito. Puxei uma manga molhada para cima e revelei um relógio de pulso. Um gato preto mostrava-me as horas e os minutos com os seus braços. Os seus olhos amendoados pareciam fazer pouco de mim. Faltava uma hora.

Olhei ao longo do caminho de terra que cortava entre as árvores e procurei um abrigo. Este corta-mato dava-me alguma vantagem em termos de tempo, mas oferecia pouca proteção contra a chuva. Ia chegar ao tribunal como um pinto encharcado. Depois reparei num trilho estreito do meu lado esquerdo, que nunca me lembrava de ter visto ali antes. Parecia que acabava um pouco mais à frente numa clareira. Talvez houvesse uma casa. Levantei uma perna e saí da bicicleta ainda em andamento, empurrando-a apressadamente pelo trilho. Efetivamente, uma casa revelou-se além das árvores, aninhada no limiar do bosque. Os meus olhos embaciados prenderam-se no alpendre seco e escancarei-os perante a solução para o meu problema. Trovões irromperam do céu como uma manada de bois no meu encalço.

Enquanto corria para o meu refúgio, observei a casa de madeira. Parecia abandonada, com vidros partidos no piso térreo e ervas altas a crescer no telhado. Na porta da rua fechada esvoaçava um bilhete pregado. Deixei a bicicleta tombada contra os degraus e subi-os com um salto na direção do alpendre. Passei as mãos pela cara e aconcheguei-me contra a parede. Cheirava a madeira molhada.

A chuva caía agora em cascata embalada pelo vento, formando poças de lama na terra. Com uma mão senti o relógio tapado pela manga. Quanto tempo é que ia durar este dilúvio? Pensei no Jorge e senti uma pontada fria no peito. Não o podia deixar mal quando mais precisava de mim. Abanei a cabeça, incrédulo com a situação. Eu ainda o via como o rapaz que brincava comigo nas traseiras do prédio, a entrar no carro abandonado que servia de sede às nossas missões secretas. Empunhávamos armas a fingir, talhadas de ramos velhos, e apanhávamos criminosos fugidos da justiça no meio de gargalhadas.

Um relâmpago estalou no céu, seguido de um estrondo no interior da casa.Virei-me para o edifício que me protegia e fiquei alerta. Será que a chaminé tinha sido atingida por um raio? Sintonizando os ouvidos para além do som da chuva observei a nota pregada na porta. Estava quase a soltar-se com o vento. Com uma mão apanhei-a antes de se impulsionar na direção da chuva. Olhei para o papel húmido e sujo:

Não entrar. Casa em perigo de ruína.

Dei um passo atrás, incerto se devia permanecer ali. As tábuas do chão pareciam estáveis o suficiente. Olhei novamente para o papel com uma crescente sensação de ansiedade e enfiei-o no bolso. Considerei se teria sido melhor continuar pelo caminho enlameado até sair do bosque. Por esta altura já tinha chegado ao tribunal. O mais importante era o que tinha a dizer como testemunha de defesa, e não o estado das minhas roupas. Além do mais, teria tempo suficiente para secá-las um pouco na casa de banho.

Dirigia-me para a bicicleta quando um estalido, agora mais suave, se fez novamente ouvir do interior da casa. A minha respiração acelerou e senti o coração a martelar nas veias do pescoço. Esta tempestade, em comunhão com a noite repleta de sonhos cansativos, estavam a brincar com a minha imaginação. Decidi que ia só espreitar pela janela ao fim do alpendre. Era só isso. Olhava lá para dentro, não via nada e ia-me embora.

O vento mudou de direção lançando a chuva na diagonal para dentro do alpendre. Quando me aproximei da janela as gotas escorriam no vidro, limpando a poeira que se acumulava no parapeito. Quando o meu olhar passou para além do vidro, o sangue gelou-me nas veias. Na grande sala, a imponente lareira na parede da direita estava acesa. O brilho das chamas dançavam pelo espaço escurecido, a lenha crepitava libertando um ocasional estalido mais forte. Saí da frente da janela e encostei-me rapidamente à lateral da casa. Eu pensava que a casa estava vazia, mas claramente estava lá alguém. Não me apercebera de ninguém na sala. Provavelmente estaria num dos quartos do piso superior.

A água fria escorria-me da cara e martelava-me no impermeável como se me pressionasse a entrar na casa. Virei-me para a porta e considerei essa opção. A tempestade tinha invadido o alpendre e estava mais forte do que antes, pautada por violentas rajadas de vento. Fazendo a custo um punho fechado com a mão enregelada, bati três vezes na porta de madeira. Voltei a bater três vezes com mais força para subir acima do barulho da chuva e do vento nas copas das árvores. Não houve reação do interior da casa. Bati uma vez mais, com mais força, agora com a lateral do punho. A porta abriu-se sob a pressão e vi-a deslizar lentamente até ficar entreaberta. A porta tinha estado mal fechada o tempo todo.

Afastei-a um pouco mais e fui inundado pelo cheiro a mofo e fumo.
— Está aí alguém? — O ruído abafou a minha voz tremida. Tentava desesperadamente sintonizar os ouvidos para o interior da casa, mas o coração a bater-me nos ouvidos dificultava a tarefa. — Procuro refúgio da tempestade. Está aí alguém?

Reconheci, para a direita e antes da entrada para a sala, a balaustrada de uma escada. Dei os meus primeiros passos no interior deixando a porta a vacilar ao vento. As escadas estavam intransponíveis. Caixas de cartão de grandes dimensões amontoavam-se nos degraus não deixando ver o que ficava para lá das suas formas na penumbra. Se alguém estava nesta casa, só poderia estar noutras divisões do piso térreo que não a sala. Reparei num corredor à esquerda da porta de entrada. Ao passar por ela chegou-me o som de madeira a rachar. Lá fora, do outro lado da clareira fustigada pela chuva, um pesado ramo tombava de uma das árvores que a ladeavam. Com um gemido doloroso deixou o tronco central e precipitou-se sobre o trilho que levava à casa. Eu fiquei estupefacto. Estava a tornar-se cada vez mais difícil chegar a horas ao tribunal. O julgamento ainda ia durar umas semanas. Só me restava esperar conseguir ser ouvido noutro dia.

O corredor que levava à cozinha estava completamente às escuras. Tateei ao longo da superfície húmida das paredes laterais até chegar a um espaço com grandes janelas de vidro que davam para as traseiras do edifício. A luz mortiça que escorria pelas várias secções de vidro sujo permitia-me ver suficientemente bem o interior. Havia pratos por lavar empilhados na pia; garrafas vazias sobre a pequena mesa de plástico ao centro emolduravam uma corda enrolada como uma cobra adormecida. Alguém estava a usar esta casa, mas quem quer que fosse, não estava aqui no momento. Não haviam marcas de pneus lá fora, nem a possibilidade de se chegar aqui com um carro, por isso a pessoa mistério só voltaria quando terminasse a tempestade. Mais valia não desperdiçar o calor do fogo por isso dirigi-me para a sala.

Havia dois grandes cadeirões de pele mal-tratada dispostos em frente à lareira. Sentei-me cautelosamente naquele que não estava coberto de pó. Depois, respirei fundo e relaxei os músculos do pescoço, deixando a cabeça inclinar-se para trás contra o apoio. Senti-me inebriado pela onda de calor que me aquecia a cara e as mãos e evaporava a água da minha roupa. O pequeno fio de fumo que saía em espiral da lareira enevoava-me a vista e dei por mim a semi-cerrar os olhos aguados.

A imagem de um Jorge mais novo a sorrir dançou entre as chamas transformando-se no adulto de hoje, sentado no banco dos réus. Os seus olhos familiares olhavam-me, descaídos. Eu sentia o peso da sua dor. Ver-se envolvido num caso de múltiplos desaparecimentos e acusado da possível morte dessas pessoas tinha sido a gota de água na sua personalidade sensível. As provas circunstanciais de que tinha sido visto à porta de casa de duas das mulheres que nunca mais tinham sido vistas eram poderosas perante o meu testemunho do seu bom caráter. Mas essa era a verdade, além do que podiam dizer os vídeos captados por modernas câmaras de segurança. Eu conhecia-o, como mais ninguém. Ele tinha sido o ombro onde eu encostara a cabeça em tempos de dificuldade. Era agora o meu dever ajudá-lo.

Os olhos compreensíveis do Jorge rodopiaram nas labaredas e esfumaram-se. A minha respiração acalmou e quando estava prestes a desligar os sentidos o som de algo a partir no piso superior arrancou-me do doce lazer. Sentei-me como um espeto a olhar para o teto da sala. Decidi que estava na hora de sair dali. Rapidamente.

Ao passar apressado em frente à escada atafulhada, ouvi novamente um ruído forte vindo do piso de cima. Parei em frente à escada. Sentia-me a começar a ficar irritado. A noite mal dormida, a tempestade, os nervos de estar atrasado para uma responsabilidade importante estavam a pôr fim ao meu bom senso. Outra vez, uma pancada forte, como se alguém estivesse a bater com um pau no chão. E outra vez, agora mais fraco.
— Eu já perguntei se está aí alguém! — gritei eu com uma voz esganiçada. Duas pancadas de seguida. Contra toda a cautela que me tinha sido passada pela minha mãe disse:
— Vou aí acima. — Mais duas pancadas. Alguém me estava a responder.